Viagem a Itália
O que fica dos filmes vistos na 18.ª Festa do Cinema Italiano. Depois há um senhor dos enigmas, Kitano e outras paragens.
Há muito tempo que não fazia isto: seguir um festival de cinema a um ritmo diário. Só houve um dia em que não pus os pés no Cinema São Jorge para apanhar alguma sessão da Festa do Cinema Italiano. Nos outros vi uma dezena de filmes, mais dois da retrospectiva de Pietrangeli ainda a decorrer na Cinemateca - mas neste texto vou só focar-me no que descobri lá na casa do dragão.
Houve um tempo em que era normal estar presente em vários festivais e entrar neste frenesim, mas não houve uma odisseia tão intensa como a primeira, em 2014. Escrevia para o Espalha Factos e vi pouco mais de uma dúzia de filmes e, como easter egg, deixo a nota de que entrevistei nesse ano o enorme Vittorio Storaro. Até 2017 fui marcando presença, se bem que nunca com a mesma dedicação à causa, não só neste festival como na Monstra e no DocLisboa, tudo em trabalhos de cobertura online que, depois daquela estreia, foram para o site Máquina de Escrever.
Já por esta altura da minha vida, gosto de ir aos festivais apanhar um ou outro filme que me interessa e que receio não ter outra oportunidade de ver em sala - aconteceu isso no ano passado com o IndieLisboa, e a sensação de ver “All Of Us Strangers” numa esgotadíssima sala Manoel de Oliveira é daquelas que ficam para o resto da vida. Por falta de tempo, ou mesmo de interesse, fui-me afastando do circuito dos festivais. Convenhamos que a vida é curta para tanto filme, e por vezes será necessário fazer escolhas.
Mas em 2025, decidi seguir a Festa do Cinema Italiano.
Podia ter apanhado um enorme barrete, mas ou tive sorte nas escolhas que fiz (apanhei uma ínfima parte da programação, com dezenas de outros filmes), ou a selecção desta 18.ª edição foi francamente acima da média. Vi alguns filmes muito bons, outros bons e um ou outro mediano, mas não me arrependi de ter visto algum deles (talvez seja essa a melhor avaliação que podemos fazer de uma obra, se o investimento temporal foi acertado ou não).
Deixo de seguida algumas reflexões sobre esses filmes, as primeiras re-trabalhadas de uns bitaites que lancei no Letterboxd. E com uma ressalva importante: grande parte deles vão estrear em breve no circuito comercial (é de louvar este trabalho contínuo e crescente, ao longo dos anos, da equipa do festival em trazer o cinema para lá do evento). E entretanto a Festa vai passar por muitas cidades. Vale a pena espreitar o programa.
Apesar de apreciar a diversidade de festivais de cinema da capital, há uma coisa que me faz espécie, e que senti também na Monstra (cuja edição 2025 acompanhei, mas sem a mesma dedicação): a forma como as enchentes provocadas pelas sessões de abertura (com muitos bilhetes oferecidos) não se repetem em grande parte do festival. Além de que o ambiente pseudo-socialite, das elites culturais a picarem o ponto para as fotografias, não é muito divertido de testemunhar. É giro reencontrar caras conhecidas, amigos cinéfilos que pululam pelos vários certames, mas a loucura das aberturas opõe-se ao resto dos dias, por vezes de formas mais vincadas do que noutras.
Mas, dito isto: a abertura fez-se com um “realizador de cabeceira” da Festa, Andrea Segre, e com Elio Germano a protagonizar (vi 3 filmes com ele só na edição deste ano): "Berlinguer - La Grande Ambizione" é um retrato do secretário-geral do Partido Comunista Italiano, com especial destaque para a tragédia de Aldo Moro. Mas também se relatam as suas andanças entre países, confrontando as diferenças deste comunismo com o da URSS e o impacto do PCI naquela época, centrando-se muito naquela personalidade para contar 5 anos daquela vida, todos nos conturbados setentas (73 a 78, até ao caso Moro).
É um filme escorreito, preocupado com a autenticidade e com a recuperação de um espírito de diálogo e de mútua compreensão que parece inexistente hoje (e talvez por isso a sombra destes tempos nunca tenham deixado de pairar em Itália). O realizador apontava, a apresentar a sessão, que um jovem espectador lhe tinha dito como o filme lhe trazia "nostalgia do futuro". E é, de facto, uma ideia acertada.
É impressionante o trauma que esses acontecimentos deixaram na sociedade italiana (mesmo antes já marcara o cinema com "Todo Modo", obra estranhamente profética de Elio Petri), a ponto do seu cinema voltar a ela várias vezes, quase dando para fazer uma espécie de "cinematic universe" à volta dos anos 70 na política do país, os seus protagonistas e/ou as histórias paralelas ao rapto e morte de Moro. Na noite seguinte quando fui a outra sessão, falava com amigos sobre este filme e uma espectadora italiana entrou na conversa. Eu perguntei-lhe se isto fazia sentido, esta ideia de uma “ferida que não tinha sarado”. E ela respondeu, no seu português quase perfeito: “Claro que sim. Veja como estamos agora”.
Quando falava do desfasamento entre as sessões de abertura e o resto de um festival, estava a pensar na sessão de “Il Tempo Che Ci Vuole“ de Cristina Comencini. A sala Manoel de Oliveira estava quase vazia e foi uma pena. Percebi, pelo que fui falando com malta que conheci no festival, que este filme não lhes chamou a atenção. E eu pensei: ma come? Uma realizadora a falar do pai, uma das figuras mais importantes do cinema italiano? E passado este tempo todo (vi o filme no dia 10), é daqueles que mais tem sido “trabalhado” pela minha cabeça. Deixo o que escrevi depois da sessão:
"Nós somos os intrusos", diz Luigi Comencini ao seu assistente, depois de o ver a gritar com os habitantes do local de rodagem da cena de Pinóquio que estão prestes a filmar. "Estas pessoas estão nas suas casas. Primeiro a vida, depois o cinema". Tal como disse o pai, o filme da filha está mais interessado na vida, mas com o cinema sempre atrelado a ela - não é para menos, se essa vida esteve sempre ligada aos filmes.
Uma realizadora fazer um retrato autobiográfico da sua relação com o pai, neste caso também ele um realizador e, ainda por cima, um nome importante para o cinema italiano, tinha tudo para ser um exercício voyeurístico com a mesma qualidade de um “Mommie Dearest”. Mas não é isso que trouxe Cristina Comencini: não foi uma relação fácil, mas porque a própria filha não fica bem na fotografia. Mas não há aqui nada mais do que um filme cheio de autenticidade e em que se expressa um grande amor pela figura paterna, presente em momentos difíceis em que nenhum pai saberá o que fazer.
As cenas sucedem-se em várias fases da vida da filha, desde a infância e o deslumbramento com o mundo do cinema (e a espontaneidade desse momento, em que a menina revela o porquê do seu bloqueio assim que a câmara começa a filmar, é preciosa), passando a esses anos tenebrosos da toxicodependência, à recuperação e início de carreira, a fazer uma obra autobiográfica que o pai não entendia - porque sempre fizera filmes para o grande público, falando de si mas sem ser de uma forma que alienasse essa massa de espectadores.
Gostei muito porque senti verdade em todas as cenas. Dos momentos de bastidores dos filmes à dissecação dos momentos mais dramáticos (toda a cena do pai a descobrir o vício da filha é angustiante e construída de uma forma que se aproxima da perfeição), estive sempre a ver o decorrer desta relação familiar, e os seus altos e baixos, com um fascínio por esta história. Belo filme, belos actores, bela homenagem que ganha por ser tão verdadeira.
Sobre "Iddu - L'Ultimo Padrino" não há muito a dizer. É um filme de máfia divertido que vale pelos actores: novamente Elio Germano e Toni Servillo. Inspira-se numa história verídica de um chefe criminoso que conseguiu andar fora do radar da polícia durante três décadas, e do seu padrinho que troca cartas com ele e que poderá, então, dar conta às autoridades do seu paradeiro. Já não me lembro de muito do filme: é bastante rotineiro, sem nunca ofender ou entusiasmar muito, mas há uma curiosidade aqui: quem realiza o filme foi a dupla de Fabio Grassadonia e Antonio Piazza - os mesmos que fizeram "Salvo", o primeiro filme que vi na Festa de 2014.
Contrariando as minhas próprias expectativas, voltou a haver sala cheia para “Follemente”, novo filme de Paolo Genovese, criador desse êxito planetário que é “Perfetti Sconosciuti”, que deu origem a incontáveis remakes no cinema mas também a peças de teatro (uma portuguesa inclusive). Esta é uma versão adulta da premissa do "Inside Out" da Pixar: assistimos a um encontro entre um homem e uma mulher, com quatro personagens em cada uma daquelas cabeças a ver o que deve fazer para que tudo corra bem - mas a julgar também todos os erros que vão sendo cometidos. Que bom que é ver uma sala em sintonia, e ouvir os rugidos das gargalhadas ao longo de todo o filme. É uma comédia despretensiosa mas bem esgalhada, com óptimos diálogos e interpretações, num olhar aguçado sobre as relações. Genovese pode não ser o realizador mais original do mundo, mas sabe fazer as pessoas rir - e isso merece respeito! E vai estrear em breve: se puderem, vejam-no com muita gente.
Este é uma curiosidade. Vi no domingo passado e entretanto estreou esta semana. Chiara Mastroianni vive com o peso de ser “filha de quem é”: dois dos maiores actores do mundo. Catherine Deneuve e Marcello Mastroianni. Tendo ela muitas semelhanças com o pai, o ponto de partida de “Marcello Mio” foi esse: explorar o look do actor na actriz-filha, que assume esse papel com tanta intensidade que vai surpreendendo as várias personagens com quem se vai cruzando (incluindo a própria mãe). É óbvio que se trata, em parte, de um projecto masturbatório demasiado contente com a sua premissa, e o lamento de uma nepo baby que chora a injustiça que é ter uma mãe e um pai muito famosos. Mas tem um lado jocoso e divertido que fez com que se fosse aguentando (para mim, claro) até ao fim, mesmo que o interesse das imagens vá oscilando muito.
Esta foi a grande surpresa desta 18.ª Festa do Cinema Italiano e, entre os que vi, o que devera ser o filme premiado da competição: “Familia” de Francesco Costabile foi apresentado na sessão como o retrato de uma história “que chocou a Itália”, primeiro no livro escrito pelo seu protagonista e, depois, com este filme que o adapta. Digamos que é uma família, no mínimo… complicada. Um pai violento que é afastado mas que depois consegue voltar ao seio familiar, uma mãe desesperada com esta presença constante e dois filhos que, de pequeninos a adultos, se vão confrontando com a violência imposta pelo pai. Um desses filhos, o tal que escreveu o livro, vai envolver-se num movimento fascista (é assim mesmo, por lá pelo menos assumem o que são, ao contrário de certos partidos que muito se assemelham a essa corrente ideológica…). E “Familia” é sobre a tal “violência sistémica”, mas feito com uma força que me foi deixando sempre perplexo. É grande cinema, difícil de ver por vezes, mas autêntico e superlativo. Fico muito curioso para ver que percurso é que este filme poderá fazer fora de Itália, porque merece toda a atenção.
É impressionante como a cultura cinematográfica de um país, mesmo que sobejamente conhecida, possa reservar algumas surpresas que nos tinham escapado completamente. Tive essa reacção ao saber que a Festa ia recuperar este ano uma personagem chamada Fantozzi. Nunca tinha ouvido falar dele, apesar de ser uma figura muito popular naquele país - o que diz muito da forma como uma cultura também é feita de fenómenos locais, talvez menos compreensíveis para outros países e idiomas. E ainda bem, se fosse tudo universal, estávamos tramados! O filme que apresentou Fantozzi (e Paolo Villagio nesse papel) aos espectadores faz agora 50 anos, e por isso passaram este e o segundo filme das suas aventuras. O título em inglês do primeiro filme é "White Collar Blues" e revela-se acertado: o Fantozzi é contabilista numa empresa gigante que maltrata os seus subordinados, todos chefiados por um mega director galáctico (isso mesmo!). O resultado é uma sátira de costumes em vinhetas, com alguns momentos muito bons no primeiro filme de crítica social ao mundo do trabalho e ao capitalismo. Uma ideia particularmente feliz do primeiro filme é a de que, quando a gente está de férias, uma nuvem anda especificamente atrás de nós para nos atirar uma valente carga de água. Há coisas que não consegui entender (mas devem ter graça, porque ouvi italianos a rirem-se), mas consegui perceber o porquê do culto à volta deste pobre diabo: é que ele representa toda a gente e as agruras da sobrevivência. E Villagio dá parte do charme adicional a este anti-herói do povo.
Já não consegui achar a mesma graça à sequela - torna-se monótona, desinspirada, aborrecida. O momento mais interessante dela é quando um dos chefes da empresa cria um cineclube para todos os empregados, obrigando-os a ver “O Couraçado Potemkine” várias vezes, ao que a audiência responde com enfado e uma tentativa de revolução (curioso que enfado foi o que eu senti a ver “Il Secondo Tragico Fantozzi”, mas não a obra de Eisenstein. E não é para me armar em bom, é porque nem consigo perceber como é que alguém pode achar aquele filme aborrecido).
Vi o segundo Fantozzi no último dia do festival, em que pensava que ia fazer só uma dobradinha - já lá vamos. O filme que se seguiu, poucos minutos depois, foi “Palazzina LAF”, mais uma história verídica (e mais uma vez o senhor Germano), realizada pelo actor que a protagoniza (Michele Riondino). É sobre um tipo que é contratado para espiar os colegas, acabando por ir parar ao edifício LAF, que os operários invejam por acharem que se trata de um sítio idílico, onde ninguém faz nada e recebe muito bem. Mas na verdade, aquele sítio causa uma espécie de tortura psicológica aos muitos funcionários que ali estão, “à espera do que acontece” como a nêspera. Uma espécie de comédia em que só no epílogo ficamos mesmo a entender a dimensão criminosa daquele edifício, um objecto invulgar mas consistente que, em breve, também vai andar pelos cinemas (o título português é “O Lugar do Trabalho”, e vendo o filme percebe-se porquê).
Como disse, ia só ver dois filmes no último dia. Não tinha vontade de ficar para uma terceira sessão que, talvez, seria a de encerramento - mas ter de lidar com muita gente, aquele tipo de ambiente que descrevi para a sessão de abertura, e toda a parte institucional da entrega de prémios e etc (bem como, last but not the least, o filme da sessão ir estrear em breve) tinha-me feito pensar que o melhor era ir para casa, já tinham sido duas de seguida e é preciso descansar a vista.
Mas… depois de uma bifana e de ter apanhado um bocado de ar, e já sabendo qual o filme vencedor porque recebera um comunicado com embargo, pensei: “porque não? Só tem 80 minutos”. E então, lá fui ver “Anywhere Anytime”, o melhor filme da secção Competitiva… de acordo com o júri.
Realizado pelo iraniano Milad Tangshir, que vive em Itália desde 2011, é uma história que, na verdade, podia passar-se em qualquer outro lugar do mundo. Todos conhecemos, com mais ou menos detalhe (ou simplesmente porque vamos observando o mundo lá fora), a realidade dura dos que trabalham para aquelas plataformas de entrega de comida (ou de outras coisas, agora dá para tudo). Muitos andam de bicicleta por aí, a subir e a descer as ruas, para entregar refeições. A app é a que dá nome ao filme, e faz sentido: estas pessoas estão disponíveis em todo o lado e a qualquer momento, a troco de remunerações desumanas.
É a premissa para fazer uma espécie de actualização de “Ladri di Biciclette”, mas claro que com muitas diferenças. O filme é simples, por vezes esquemático, mas vai crescendo graças ao seu protagonista, Ibrahima Sambou. É quando deixa tanto de querer “ser cinema” e cumprir os itens da lista de clichés de “realismo social” (aquelas coisas que fazem com que qualquer filme italiano com essa intenção seja logo comparado ao neorrealismo), que vai ganhando corpo, seguindo nós as desventuras daquela personagem que só quer sobreviver. Mesmo que isso seja a troco de quase nada.
É, em suma, um bom filme, sincero e tocante. Mas “Família” é bem melhor.
Podendo, é ver os dois. Ambos merecem.
O que se recomenda…
… de filmes
Se calhar hoje não meto aqui nenhuma recomendação neste campo. Já tiveram doze filmes nos parágrafos anteriores. Já é suficiente, não?
… de livros
Volto à carga com banda desenhada, e desta vez com uma das marcas mais populares dos comics: a DC criou uma chancela para editar histórias mais adultas, que fogem das convenções canónicas das séries principais dos seus variadíssimos heróis. É nessa Black Label que se encontram algumas coisas muito boas, como este "The Riddler: Year One". Fui comprando a história faseada em revistas (foram seis, e não recomendo a ninguém meter-se nesse mundo dispendioso das BDs em fascículos), e foi das que mais me surpreendeu nos últimos anos. O actor Paul Dano foi o Riddler no filme mais recente do Batman, e decidiu escrever uma história de origem da sua versão do vilão, completamente distante do original mais cartoonesco (no qual Jim Carrey se inspirou para a sua versão no filme "Batman Forever"). A uma odisseia psicológica pelas ideias deste homem dos enigmas, já interessantíssima na parte narrativa (e é curioso como sentimos mesmo a voz de Dano nas reflexões da personagem), juntou-se uma arte espantosa de Stefan Subic que é, por si só, um tratado gráfico sobre a paranóia e a alienação. Talvez seja impossível uma tradução dar a mesma sensação do original, até porque um dos capítulos da história se faz, quase integralmente, de páginas de apontamentos do Riddler que foram mesmo escritos à mão. Correremos mesmo o perigo de enlouquecer com a leitura de “The Riddler: Year One”? Provavelmente não, mas testemunhamos uma BD perturbante e arriscadíssima que não nos deixa voltar ser a mesma pessoa que éramos antes de a lermos. E fica uma certeza: é que Gotham é mesmo uma cidade de merda.
… de discos
A recomendação musical de hoje tem uma justificação curiosa: eu gosto de ouvir música enquanto escrevo - maioritariamente álbuns instrumentais, mas de vez em quando os discos de cantigas lá aparecem. E este décimo álbum dos R.E.M foi a minha companhia hoje, ao longo da teclagem destas linhas (e ainda está a rodar, pela segunda vez agora). Gosto muito da banda e já não ouvia isto há muito tempo. É um álbum que começou a ser arquitectado em 1995, portanto há 30 anos. E tem a minha idade (sim, novamente o fantasma do 30.º aniversário iminente a pairar, e cada vez mais perto...). Bela colecção de canções, mas claro que, para mim, "Automatic For The People" é o álbum do coração - isto porque foi o primeiro deles que ouvi, e até pode nem ser o melhor... mas lá está, a ligação emocional que temos à arte dá-nos outra percepção das coisas. Curiosidade que não sabia: "E-Bow the Letter" teve a participação da enorme Patti Smith. Soube muito bem (está a saber ainda) voltar a "New Adventures in Hi-Fi".
… de vídeos
O YouTube vai-me recomendando vídeos surpreendentes, e vi este há uns dias. É um ensaio audiovisual sobre Takeshi Kitano, desde a sua primeira experiência na realização ao que se seguiu, entre as aclamações além-fronteiras e a dificuldade de ser levado a sério como cineasta no Japão, país habituado a rir-se com as macacadas do seu alter-ego "Beat Takeshi" em milhentos programas de TV. Fiquei fã do canal, não conhecia ("Just One More Thing"), e aqui temos uma belíssima homenagem a Kitano, que me fez pensar a falta que fazem os filmes dele entre nós. Mesmo que já não sejam a mesma coisa, gostava de ter visto os seus filmes mais recentes em sala. Já agora, o último tem pouco mais de uma hora é delirante, chama-se "Broken Rage", é uma história de yakuzas contada em duas perspectivas (uma mais séria e outra à beira da comédia idiota) e está na Prime Video... ou no Videoclube do Sr. Joaquim.
… de outras ligações
Eles bem dizem neste episódio: que os ouvintes do podcast "Enterrados no Jardim" dividem os episódios em bocados, prolongando as quatro horas (ou mais) de cada episódio por vários dias ou semanas. Ou então, aproveitam para ouvir mais uns minutos enquanto lavam a loiça. Confesso que vou pondo este podcast em dia na altura de limpezas mais aprofundadas em casa - e foi graças a isso que ouvi este episódio que vos trago (e, mesmo assim, tive de acabar a escuta num passeio, dias depois). Os anfitriões Diogo Vaz Pinto e Fernando Ramalho vão recebendo convidados interessantes, por vezes completamente desconhecidos, para longas conversas livres, sem constrangimentos, por vezes polémicas, sempre acutilantes e entusiasmantes. É daqueles casos em que um podcast desperta os nossos neurónios para nos fazer pensar em temáticas tão diferentes como o meio literário português ou a obra de Don Rickles (como aconteceu noutro episódio). Não interessa concordar ou não, mas que a conversa seja interessante o suficiente para nos tirar do sítio confortável onde estamos alienadamente refastelados. E gosto tanto de ouvir os autores do podcast que não hesito, também, em recomendar os episódios sem convidados (como é o caso do mais recente, que terei de ouvir em breve). Mas este episódio em particular que vos trago é precioso: tem Vasco Santos, editor com longa história no meio, agora responsável pela VS. Há muita coisa para pegar nesta conversa, entre memórias de outros tempos da literatura portuguesa aos desafios de hoje, em vários campos. Para ouvir, tirar notas e continuar a discussão noutras paragens.
Antes de irem embora…
Outras coisas minhas que se encontram por aí:
Imperdoável é o podcast onde vou ver os filmes que já tinha visto. Esta semana convidei o André Pereira para falar de “Billy Elliot”, que já me perseguia há mais de vinte anos. Está disponível nas plataformas de podcasts;
De Olhos Bem Fechados é o programa de bandas sonoras da Antena 1. Passa aos domingos às 23h e depois está na RTP Play. Daqui a dois dias chegamos ao 80.º episódio numa emissão só com canções, mas entretanto a série completa anda por aqui;
Pranchas e Balões é o podcast semanal sobre BD da Antena 1. Esta semana conversei com a Madeleine Pereira, autora de “Borboleta” (editado pela ASA). Podem ouvir aqui;
Mortinhos por Sair de Casa é o roteiro diário de coisas para fazer que passa às 17h40 na rádio e depois anda por aqui;
E hoje n’A Hora da Pop, o podcast da Antena 1 dedicado à cultura popular, temos toda uma emissão sobre Georges Simenon! O escritor está de volta às livrarias com a publicação de romances inéditos pela Cavalo de Ferro. Motivo para recuperar uma conversa com Miguel Martins e falar destas novas edições com o editor Diogo Madre Deus e o camarada Pedro Miguel Ribeiro. Podem ouvir aqui;
E se tiverem Letterboxd, vou escrevendo umas coisas por aqui.
E por hoje é tudo - com um pequeno atraso, mil perdões! Na próxima semana voltarei a filosofar sobre coisas impróprias para consumo. Ou talvez não. Logo se vê. Abraços quentinhos (que afinal o frio ainda não se foi embora) e arrivederci! Obrigado e bem hajam.














Gostei muito desta viagem a Itália, obrigada! Levo alguns filmes para a lista. Ri-me com o "pseudo-socialite" das elites culturais e associei logo à música. Quando vivi em Lisboa, senti muito isso em certos concertos e eventos. Mas continuando, li noutro post teu que estiveste em Roma. Aproveito para recomendar o Museu de Cinema em Turim, caso não tenhas passado por lá.
Quero muito ver Follemente e Il Tempo Che Ci Vuole.