Vale a pena ver de novo
Reflexões sobre rever filmes e a passagem do tempo. No fim, algumas notas sobre Gene Hackman e outras recomendações.
O aproximar dos 30 está a mexer com a minha cabeça.
Não quero apontar para um sentido negativo, se bem que a passagem do tempo seja razão suficiente para uma pessoa ficar deprimida e decidir enterrar-se no sofá com um pacote de bolachas e a fazer um zapping descontrolado e apático por todos os canais que a box oferece (confesso que, à conta desses momentos ocasionais em que uma pessoa vai abaixo e tem o cérebro a parecer-se com uma omelete, ganhei um especial apreço por programas de lojas de penhores, com nomes sempre tão sugestivos como “Pawn Stars” e “Hardcore Pawn”, e descobri um certo prazer em ver alguns programas de culinária).
Estas últimas semanas com 29 anos têm-me feito constatar, em variadíssimas ocasiões, como a minha noção da distância do tempo mudou. Há uns meses, um amigo ofereceu-me um poster do “Merry Christmas, Mr. Lawrence”. Recordei-me que, da segunda e última vez que vi o filme, tinham-se passado três anos desde a primeira. Parecia ter sido há muito tempo, naquela altura. Quando me lembrei disso, pensava que esse revisionamento tinha sido também há três anos… mas na verdade já passaram 6. E para o ano faz uma década da primeira vez.
É esquisito, perceber que há coisas de que me lembro muito bem que já aconteceram há mais de dez anos. Quando cheguei aos 20 não tive essa percepção, até porque aquilo que eu era na primeira década de vida é para, enfim, guardar na gaveta e fingir que não aconteceu. Mas já terem passado tantos anos desde que atingi a maioridade é esquisito.
Mas tem sabido bem, agora, rever certos filmes. Sempre fui revisitando alguns, ao longo dos anos, mas a percepção agora é diferente: estou realmente a redescobrir filmes que vi primeiro há dez, doze, quinze anos!
Em certos casos, é como voltar a ver as mesmas imagens mas com outros olhos, outra experiência do mundo ou outro ponto de vista. Há filmes que não gostei à primeira e que agora são uma coisa completamente diferente: “All the President’s Men” é um óptimo exemplo. Estive durante tantos anos à espera de revê-lo e contrariar a impressão apática que tive de quando o apanhei na RTP2 ainda no secundário, e agora encontrei um filmaço. Outro ao qual pude voltar em sala há uns anos: “Mr. Klein”, que assombro. Mas quando uma obra fica tanto tempo a matutar na minha cabeça, sei que tenho de a reencontrar. Ficou com muito para me dizer, ou eu é que não quis ouvir a sua conversa e arrependi-me inconscientemente dessa atitude. Aconteceu com esses dois filmes, e muitos outros.
Mas nos últimos dias reencontrei dois dos meus favoritos: “The Deer Hunter” e “The Thing”. O primeiro foi à boleia da participação no podcast VHS (deve sair entretanto), e o outro foi simplesmente porque sim.
Ambos os reencontros foram riquíssimos, confirmando a primeira impressão e dando até algo mais. Voltar ao épico de Michael Cimino sabendo como tudo termina torna a experiência mais emocionante. Toda a primeira parte, os 70 minutos em que estamos naquela comunidade da Pensilvânia, antes e depois do casamento de um dos três camaradas que vai partir para o Vietname, revelou-se-me agora de outra forma. Muitos ficam de pé atrás com a duração deste prólogo que, nas mãos de outro realizador, ou numa produção “mainstream” contemporânea, seria reduzido a 10 minutos ou menos. Mas tudo o que acontece em cada cena, em cada plano, é fulcral para entender aquelas personagens, e muito fica no ar para o espectador digerir e reflectir. E talvez seja um cliché dizê-lo (e falámos sobre isso no podcast), mas “The Deer Hunter” não é, de todo, um filme sobre o Vietname. Pouco tempo ficamos na guerra, entramos nela de pára-quedas depois do casamento, mas lidamos mais com a desumanidade do que com a guerra em si. E Christopher Walken… que dizer de um actor que tem aqui uma prestação de uma intensidade que não bate certo com o resto da sua filmografia? Cimino deve ter trabalhado o seu talento com uma abordagem que mais nenhum cineasta soube (ou quis) replicar.
Já “The Thing” pude rever em sala, no ciclo da Cinemateca que trouxe seis longas de John Carpenter comentadas por Jean-Baptiste Thoret. Adoro pessoas a falarem com entusiasmo das suas paixões, e o antes e depois da sessão deu para testemunhar isso. E Thoret fez uma releitura impressionante deste filme, descrevendo-o como uma resposta “proletária” ao “2001”. Foi interessantíssimo, e voltar ao filme também: espectacular logo ao início, com o título a surgir com todo um aparato sonoro e visual inesquecível, e nunca perde a força até ao final. As opiniões são como os traseiros, como todos sabemos, e é tudo subjectivo e não sei quê, mas pasma-me como é que tanta crítica pôde pontapear “The Thing” na sua estreia, naqueles anos 80. A ser um sucesso, a carreira de Carpenter teria sido diferente. Mesmo assim, não deixou de nos surpreender com outros grandes filmes - e hoje ainda vou rever o “They Live” também, que vai fechar esta semana especial.
Tinha visto “The Deer Hunter” em 2013, salvo erro, numa pequeníssima televisão CRT e num DVD terrível, mas mesmo assim fiquei a sentir-me como se um camião me tivesse passado por cima. “The Thing” foi visto em 2016 em circunstâncias semelhantes (aqui tenho a data exacta porque já tinha conta no letterboxd nessa altura - estranhíssimo reencontrar coisas que escrevi sobre filmes nessa rede ao longo dos anos). Passou, então, um “porradão” de anos. Mas nunca dou por perdido o tempo investido em rever filmes. Não vai dar para ver tudo o que existe, minha gente. E entre ver a série do momento ou obras deste calibre, a escolha é óbvia.
O que se recomenda…
… de filmes
Gene Hackman deixou-nos e provavelmente sabem das circunstâncias bizarras da sua morte. Não me interessa falar disso, mas deixar o meu apreço por um dos meus actores preferidos, e constatar como há tantos filmes com ele que tenho para ver (um deles, “I Never Sang For My Father”, foi-me muito recomendado pelo amigo Tiago Laranjo). E qualquer altura é boa para recordar “The French Connection II”: sequela de John Frankenheimer estupidamente mal amada, mas que é um filmaço distinto do primeiro (um dos grandes de William Friedkin, e daqueles que até vou revendo regularmente, não sentindo por isso a tal distância temporal que referi acima).
Aqui o ‘Popeye’ Doyle tenta apanhar Charnier de uma vez por todas, mas acaba por ser vítima da droga que investiga. O ritmo da sequela é completamente diferente do filme original, um trepidante thriller de acção que mantém o entusiasmo a cada vez que a ele se volta. Aqui, Frankenheimer esteve mais interessado na psicologia, na paranóia e noutras camadas da personagem de Hackman, que volta a ter um desempenho notável. Podendo, é ver “The French Connection”, volumes 1 e 2, nos próximos dias.
… de livros
O podcast sobre banda desenhada que faço para a Antena 1 vai-me tirando os tempos livres para poder ler outras coisas que não livros aos “quadradinhos”. Por isso, cada escolha de leitura “em texto” tem de ser bem pensada (e mesmo assim, por vezes, o trabalho também me tira tempo nesse campo - como agora, em que tenho a autobiografia do Michael Richards entre mãos). Mas nas últimas férias que tive pude ler alguns romances notáveis - um deles o que deu origem ao “Kes” do Ken Loach (que ainda não vi e será um Imperdoável a corrigir em breve). Foi daquelas leituras que não queremos que acabem. Em dois ou três dias li toda a história do miúdo criado por Barry Hines, e fiquei absolutamente fã. Uma escrita maravilhosa e uma edição irrepreensível da Maldoror, uma das editoras mais interessantes dos últimos tempos.
… de discos
Ando a ver aos bochechos uma sitcom chamada “The Young Ones”. Conhecia alguns pedaços, mas decidi ver de ponta a ponta este marco corrosivo da comédia britânica, entre o surrealismo e o brejeiro, muita gritaria e estupidez à mistura. Curiosamente, cada episódio tem um momento musical, metido mais ou menos a martelo no meio das peripécias do quarteto de jovens que vivem na casa mais porca da televisão. Num deles apareceram os Madness, com a canção “House of Fun” que demorou umas semanas a sair-me da cabeça. Mas levou-me a voltar à discografia dessa banda despretensiosa, com um som muito funky e temas muito divertidos. Este “Rise and Fall” é um dos melhores discos do grupo (vamos fingir que não há blackface na capa), e foi engraçado voltar aqui porque, há dez anos, utilizei essa canção-título para um trabalho na faculdade.
… de vídeos
Passo muito tempo no YouTube. É mesmo a melhor plataforma de streaming, porque tem muito entulho mas, também, muitas preciosidades que vou encontrando diariamente.Tenho seguido esta série de conversas do Quinteto Literário, que começaram com dois episódios com cinco elementos, e o resultado foi um debate com momentos muito interessantes e outros a resvalar para o cringe. Neste terceiro episódio o quinteto virou trio, tirando as gorduras e deixando os melhores intervenientes a falarem entre si: o apresentador é Miguel Szymanski e modera a conversa entre Ana Bárbara Pedrosa e João Pedro George. A conversa passou pelos fenómenos mediáticos (com uma autora de que nunca tinha ouvido falar apesar de ser tão popular) e a auto-ficcção (e não é desta que fiquei com vontade de ler Knausgård). Já conhecia o George e entrevistei-o há uns anos, a Pedrosa foi uma óptima surpresa e terei de ler algum dos livros dela em breve. Boa hora de tertúlia, fora uma ou outra ideia dispensável, mas fica uma dica para a próxima (que espero que se mantenha em trio e não no quinteto bizarro dos dois primeiros episódios): o apresentador tem de deixar os intervenientes terminarem o raciocínio.
Antes de irem embora…
Ficam outras ligações para coisas:
Imperdoável é o podcast onde vou ver os filmes que já tinha visto. Esta semana eu e a Filipa Correia falamos do primeiro “Sexta-Feira 13”. Este e outros 20 e tal episódios estão nas plataformas de podcasts;
De Olhos Bem Fechados é o programa de bandas sonoras da Antena 1. Passa aos domingos às 23h e depois está na RTP Play. O recente episódio sobre Jacques Demy é um dos meus maiores orgulhos destes três anos de rádio.
Pranchas e Balões é o podcast semanal sobre BD da Antena 1. Esta semana falei com o Luís Bernardino (que vem todas as quinzenas) sobre as bolsas da DGLAB e 5 livros. Dezenas de episódios para descobrir aqui, e vou escrevendo sobre BD no Libro Ex;
Mortinhos por Sair de Casa é o roteiro diário de coisas para fazer que passa sempre às 17h40 na rádio e depois anda por aqui;
E se tiverem Letterboxd, o meu poiso é este.
E é tudo. Espero que não tenha sido uma maçada. É uma primeira experiência. Digam o que acharam, enviem mensagens, flores, dinheiro, etc.Obrigado e bem hajam.






