O passado é um país estrangeiro
Sobre chegar aos 30. Depois há um seminário, reflexões de Salman Rushdie, Miles Davis e outras andanças.
Na passada quinta-feira fiz 30 anos.
Esse dia, finalmente, chegou.
Seguem-se alguns apontamentos sobre isso.
Depois de estar tantas semanas a pensar nele, e a reflectir no que significa começar uma nova década de vida,… confesso que já estava a pensar numa possível paragem temporal, impedindo a idade de avançar para me manter nos 29.
Na noite de 14 cheguei a casa tarde da rádio, mas não me apetecia ficar e dormir. Tinha de fazer qualquer coisa. Liguei a um amigo que mora perto de mim e desafiei-o a um “último hurra”, um copo final dos 29.
Pouco tempo depois, entre cervejas e um prato de batatas fritas (má alimentação para terminar esta volta ao sol), perguntei-lhe o que ele sentiu quando chegou aos 30 (nasceu em 1994).
Respondeu-me que se sentiu bem. Estava farto de ter 29 anos, uma idade que não significa nada. Um par de algorismos que parece ser encarado com indiferença e apatia perante outras idades.
Já fui deixando, aqui e ali em passados folhetins, algumas curtas reflexões sobre isto. Mas reforço: eu também não tinha medo de chegar aos 30. Não é o número, ou a vida adulta, ou o facto de os mais jovens já me tratarem por senhor e/ou por você, que me faziam comichão no cérebro (se bem que ouvir uma estudante de 18 anos a dar-me 35, há umas semanas, me deprimiu um pouquinho).
Só me fez impressão, e continua a fazer, o facto de já se terem passado tantos anos.
Já tiveram aquela sensação (ou lembram-se, leitores mais velhos do que eu) de terem recordações nítidas de acontecimentos de há 20, 25 anos?
Eu sei que as memórias nunca são, realmente, impressões fidedignas, mas cópias de cópias de lembranças (diz-se que, de cada vez que nos lembramos de algo, estamos é a lembrar-nos da última lembrança desse acontecimento - tanta repetição da mesma palavra, ficou giro).
Mas eu ainda não consigo lidar com isso, de que o “Shrek 2” estreou nos cinemas em 2004, e eu lembro-me bem de correr, com os meus pais, por vários cinemas do Porto, naquele Verão, à procura de uma sessão que não estivesse esgotada (foi a loucura, esse filme. Até havia uma espécie de Epá mas verde, e com sabor a maçã, por causa do ogre).
Pensar nesta aventura corriqueira em 2010, 2015 ou mesmo 2020 era uma coisa. Mas agora já se passaram mais de duas décadas!
De repente, o meu cérebro abarca mais de 20 anos de memórias lúcidas, alguns traumas e outras coisas mais alegres e divertidas.
É estranhíssimo, isto. Porque para mim, o número 20 sempre ficou associado a algo “de há muito tempo”. É uma ideia estúpida, eu sei, mas não podemos contrariar as concepções algo instintivas criadas pela nossa cabeça em tão tenras idades.
Isto porque, quando vi pela primeira vez o “Regresso ao Futuro”, foi em 2005. Ou seja, eu tinha dez anos e o filme mais dez. Para mim, um filme com vinte anos era sinónimo de ser dos anos 80 - ou seja, de há algum tempo. Era o mínimo de distância temporal que eu começava a sentir. Os anos 90 tinham sido ali ao lado, por isso não eram “clássicos”.
Mas entretanto o primeiro filme do Marty McFly faz 40 anos em 2025, 1990 foi há 35 anos… e eu nasci há 30.
De repente, há filmes que têm mais de cem anos, a malta dos anos 70 já está para lá dos 50… tudo isto é estranhíssimo.
E por mais que seja agora normal… eu não me consigo habituar. Continuo, na minha cabeça, com a ideia dos anos 80 terem sido há duas décadas.
Daí que, de repente, perceber que afinal eu tenho trinta anos… não faz sentido.
O me sobrinho faz 20 anos em Novembro, e eu lembro-me tão bem de o ter nos braços (puxa, nunca pensei que viria a ter este tipo de conversas, “estás tão grande e eu lembro-me de ti deste tamanho” e etc).
Enfim, “é saber lidar”. O tempo passa, por mais concepções idiotas que me ocupem a cabeça. Daqui a pouco 1990 faz 40 anos, e isso ainda vai ser mais bizarro.
Enfim, ao contrário do protagonista do “Big”, eu nunca tive pressa de ser adulto. Há uma série de ideias feitas sobre crianças e adolescentes que não se adequaram à minha experiência, e esta é uma delas. Eu sempre prezei a minha idade, e mesmo estando rodeado de pessoas mais velhas do que eu, gostava de me sentir o mais novo - ainda hoje, de vez em quando, fico feliz quando pessoas me dizem “já ninguém faz 30 anos”.
Não tinha pressa de ser adulto. Mas hoje, talvez, gostava de poder ser outro adulto.
Em suma, ter algumas condições de vida, perspectivas, futuros, que pareceram deixar de ser possíveis para a minha geração (ou grande parte dela).
Gosto de manter um certo lado aparvalhado e infantil, mas não me considero uma “criança grande”. Abomino esse conceito. Mas aprecio o facto da minha geração não ter tantos pruridos em relação à banda desenhada, à animação, a regressar aos filmes e programas míticos da infância nem que seja por uma certa nostalgia.
Mas não me sinto nostálgico. Não gostava de voltar a ser o Rui com 15, 20, 25 ou até 29 anos. E prefiro mesmo o eu de hoje ao de ontem.
Este é um processo de personalidade sempre em construção, e quero acreditar que seja sempre “a subir”. Há sempre erros pelo caminho, mas desce-se momentaneamente um degrau para voltar a subir outro, e outro, e outro.
Mais do que uma pessoa, no acto de me parabenizar, salientou que “agora começam as dores nas costas e o querer ficar em casa”.
Mas por que raio é que temos sempre de estigmatizar cada idade com estereótipos tão bacocos?
Acho que hoje sou um tipo muito menos caseiro do que no “pico” da idade, em qualquer fase dos meus vintes. Hoje tenho muito mais curiosidade pelo “mundo lá fora”, e necessidade de sair de casa, do que alguma vez tive. Em 2025 tenho muito menos pruridos e regrazinhas a moldarem-me a cabeça. Gosto de imprevistos (e isto talvez se acentuou com a rádio, a arte do improviso veloz, de lidar rapidamente com problemas que nos caem nas mãos sem darmos pela sua chegada), de mudar de planos ou de criar planos do nada, de deitar tarde porque a conversa estava a ser boa. Paciência, porque “um dia não são dias”, e tendo essa disponibilidade, desperdiçar um bom momento, provavelmente único e irrepetível, apenas porque criámos umas leis na nossa cabeça que nos orientam os movimentos, parece-me um enorme disparate.
(As dores, essas, já começaram há algum tempo - fruto de uma vida de trabalho intensa, por vezes a carregar coisas pesadas, que começou aos dezoito.)
Não tenho pena de ir perdendo a juventude, mesmo acreditando que, na nossa cabeça, ao longo da vida, nunca nos sentimos com uma idade. Somos sempre uma pessoa, vista pelos outros, aí sim, através dos anos de vida que transporta. Por mais que a minha avó tenha vivido, para mim vai ser sempre aquela pessoa com oitenta anos, obviamente. Não consigo imaginar os meus pais com menos de quarenta anos (é daí as primeiras memórias que tenho deles). Aquele filme de 1985 começou logo por ser estigmatizado, inconscientemente, pelo Rui de 2005 como “um filme com vinte anos”. E ainda hoje tem duas décadas, mesmo que em 2025 vire quarentão.
Também tenho ganhado um apreço especial em rever filmes. Sempre o fiz, mas antes passavam-se quatro, cinco anos no máximo, entre a primeira vez e o revisionamento. Agora dou por mim a rever filmes que descobri há dez, quinze anos. São experiências ou completamente diferentes, ou em que as memórias batem certo com o que as imagens me dizem agora. No primeiro exemplo: rever “All the President’s Men” foi para mim um acontecimento, porque percebi finalmente o grande filme que é, e que o Rui de 2010 rejeitou completamente.
E claro, ter 30 anos hoje é diferente de os fazer em 1995. Há uns dias vi o “Control” e ainda hoje me faz confusão que o Ian Curtis casou, foi pai e morreu aos 23.
A vida muda, e os protocolos sociais também - espero eu, se bem que há pressões que se mantém e têm sido evidentes nos últimos tempos. Há colegas de escola ou de faculdade que já casaram e tiveram filhos. O estigma do “ficar para tia/tio” ainda é forte em 2025.
Fecho com uma memória: há precisamente dez anos, Peter Emshwiller lançou um projecto motivado por uma cassete em que ele, muito novo, fazia perguntas para o seu eu futuro responder. O filme acabou por não acontecer (mas o autor, recentemente, voltou a falar nisso, e talvez a concretizá-lo de alguma coisa), mas ao longo dos anos ficou sempre comigo essa ideia, curiosíssima, de como seria falar com o meu younger self.
Há dez anos podia ter sido inteligente e feito o mesmo: preparar uma entrevista para o futuro. Mas infelizmente não pensei nisso.
Mas o que posso dizer ao Rui de 20 anos?
Que lhe espera uma década incrível, cheia de altos e baixos como tem de ser. Com paixões, ilusões e desilusões. Com vários trabalhos, óptimas e péssimas surpresas, muitas amizades que surgem, desaparecem e reaparecem, e muitas coisas boas.
E a certeza de que, apesar de tudo o que de mau te vai acontecer, vais olhar para trás e constatar que a parte positiva é que fica. E que mesmo as memórias mais tristes ficam mais leves com o passar do tempo.
Um conselho (não vai dar em nada, porque infelizmente não posso mexer no contínuo espacio-temporal): não te armes em marklzinho de contrafacção, e não te diminuas, nem sejas “ceguinho” em relação ao sexo oposto. É porque, talvez, só muito mais tarde é que vais saber que, numa determinada altura, a rapariga a, b ou c até te achou graça e tu, um enorme palerma, nem te apercebeste.
O que vai ficar, da passagem para os 30, é a recordação de um óptimo dia como talvez nunca senti num aniversário. Não gosto de fazer anos porque, normalmente, tudo corre mal, mas o 15 de Maio de 2025 foi só polvilhado de coisas boas, terminando num jantar em que reuni 25 amigos, de vários tempos, lugares e circunstâncias, a jantar na esplanada da Cinemateca. Tenho passado muitas horas por lá nos últimos meses, e por isso achei que fazia sentido fazer ali a celebração.
O livro e o filme “The Go-Between” começam da mesma forma, com a frase:
The past is a foreign country; they do things differently there.
As memórias ficam, e é sempre bom voltar a esse “país estrangeiro”. Mas estou desejoso de saber o que me vai trazer o futuro.
Bom, dito tudo isto, não sei o que me espera a próxima década. Mas vou pôr um lembrete na agenda: o Rui de 2035 virá reler o que escreveu aqui o Rui de 2025 (isto se ainda houver internet, ou humanidade sequer) e contar como foram esses dez anos.
O que se recomenda…
… de filmes
As peripécias vaticanísticas das últimas semanas levaram-me a pensar em vários filmes com temas religiosos, ou ambientados em espaços com ligações a essas crenças. Um deles foi "The Devil's Playground", de Fred Schepisi, maravilhosa surpresa que descobri ao preparar-me para uma entrevista ao realizador, em 2019, para o podcast com o mesmo nome desta página. Fiquei com algumas memórias muito fortes desta história de miúdos num seminário australiano, com as oposições entre os tutores e os alunos, e as divisões entre a própria miudagem. Há uma abordagem psicológica aos dogmas e ao lidar com os impulsos humanos num ambiente de privação. Um filme impressionante, sobre o qual acabei por escrever umas linhas consideráveis que publiquei, à época, no blog do tal podcast, onde de vez em quando gostava de partilhar umas postas de pescada.
… de livros
Desde que o vi a regressar, em triunfo, ao The Daily Show, anos depois de o ter conhecido no mesmo programa (quando o mundo era outro, ele apenas tinha ainda a sombra da fatwa, e a má memória do papel de Cat Stevens na polémica), que ansiava em ler “Knife”, o livro em que Salman Rushdie fala sobre o terrível atentado que sofreu, mas do qual saiu quase ileso. É para mim uma grande inspiração a sua luta pessoal para voltar “ao mundo dos vivos”, depois de tão trágico episódio do qual escapou com vida graças à incompetência do rapaz que o atacou. E li “Knife” na última semana, e fiquei impressionado: não só pelo processo do antes, durante e depois do atentado, mas também pelas reflexões marcantes do autor sobre a escrita, o passado, a constante interrogação sobre se a sua obra e percurso no mundo se vai resumir à polémica dos “Versículos Satânicos”… e até pela investigação sobre quem era aquele rapaz, encetando até um diálogo imaginário entre aquele espécime de homicida e a sua vítima. Ah, e no meio disto tudo, há muito humor - e não deixa nunca de surpreender os risos e sorrisos que um relato de algo tão violento consegue provocar em nós. Um livro “inspirador” no bom sentido da palavra. Não recomendo a edição portuguesa, não por causa da tradução, mas pela capa horrível, de um mau gosto indescritível, que confunde o livro com um thriller de vão de escada. Diz-se que não se julga um livro pela capa, mas preferi recorrer à edição inglesa, com um design mais simples e adequado.
… de discos
Não foi muito bem recebido à época, este disco de Miles Davis. Mas o tempo veio dar outra perspectiva a "In a Silent Way", uma das escolhas recorrentes para a banda sonora cá de casa. Álbum experimental com uma fusão entre estilos e géneros, é a prova (mais uma) de um artista multifacetado que, como todos os génios, não se conformou a ser uma só coisa, alimentando o seu talento com uma curiosidade incessante à volta das possibilidades da música. Uma obra imensa, inesgotável, a de Miles, sempre a surpreender e a apanhar-nos na curva, por mais vezes que se escutem este e tantos outros discos emblemáticos.
… de vídeos
Já falei por aqui, há uns quantos folhetins, do meu apreço por Dick Cavett e as suas centenas de entrevistas imprevisíveis, interessantíssimas e nada convencionais, a personalidades de diversas áreas. Há um canal oficial do YouTube dedicado ao “The Dick Cavett Show” que vai recuperando bocados de décadas de televisão apresentadas por este senhor de voz tão peculiar, e é sempre um prazer voltar a ouvi-lo, e ver os resultados das suas perguntas desafiantes, em que a informalidade se mistura com o profissionalismo e a genuína curiosidade de alguém ansioso por saber mais do mundo de outra pessoa. Esta semana, o algoritmo youtúbico recomendou-me este excerto de uma entrevista a Jean-Luc Godard, que já tinha visto, na íntegra, há anos. Mas foi bom voltar a estes momentos, e a algo único na TV que já não conseguimos ter: conversas francas, com pausas, a perplexidade do entrevistador a tentar perceber o raciocínio do entrevistado, o saber de um cineasta fundamental e mais uma, de enésimas demonstrações, da sua forte paixão pela arte. Vale a pena perderem-se pelo espólio deste programa!
… de outras ligações
Vale a pena recordar “Not the 9 O’Clock News”, o programa de comédia de sketches, misto de sátira à actualidade e nonsense que lançou vários génios britânicos (tanto da escrita como da interpretação), neste artigo escrito em 2019, a propósito do 40.º aniversário. Depois é ir procurar os sketches - há centenas deles no YouTube, um deles célebre por ser uma paródia da famosa polémica à volta da estreia de “Life of Brian”, mas a série completa também anda pelo archive, graças ao magnífico trabalho de fãs que, por portas e travessas, conseguiram fazer algo que a BBC não conseguiu: reunir todos os episódios, sem censura nem mudanças musicais devido a direitos de autor expirados.
Antes de irem embora…
Outras esquinas virtuais onde que me podem encontrar:
Imperdoável é o podcast onde vou ver os filmes que já tinha visto. Esta semana convidei o realizador Ricardo Machado para falar do “Cubo”, um dos êxitos de culto da segunda metade dos anos 90. Está nas plataformas de podcasts;
De Olhos Bem Fechados é o programa de bandas sonoras da Antena 1. Passa aos domingos às 23h e depois está na RTP Play. Volta no próximo fim de semana, mas entretanto há pouco mais de 80 episódios para ouvir por aqui;
Pranchas e Balões é o podcast semanal sobre BD da Antena 1. Esta semana conversei com Madie La Cerda e Ricardo Serrazina, autores de uma saga de fantasia publicada pela Le Lombard. Podem ouvir aqui;
Mortinhos por Sair de Casa é o roteiro diário de coisas para fazer que passa às 17h40 na rádio. Regressa na segunda, mas todas as emissões andam por aqui;
E hoje n’A Hora da Pop, o podcast da Antena 1 dedicado à cultura popular, recebe o Gonçalo Almeida, realizador com uma carreira já grande entre curtas e longas metragens. Começámos por falar do projecto mais recente, o premiado “Atom & Void”, mas depois andámos para trás e para a frente no tempo. Podem ouvir aqui;
E se tiverem Letterboxd, ainda se cruzam comigo por aqui.
E por hoje é tudo. Desculpem o atraso no envio do folhetim, mas as festividades (e a emissão este fim de semana das 7 às 13) trocou-me as voltas. Obrigado e bem hajam.







Quando fiz 30, em Fevereiro, três dias depois da Teresa nascer, também me pus a reflectir no tempo que já passou, e também achei estranhíssimo. Ainda acho, apesar de, tal como tu, estar muito mais confortável com o meu eu de hoje do com quem o de ontem. Mas como assim eu já não tenho 20 anos, já não estou na universidade, vivo há cinco anos com a mesma pessoa, estou há quase uma década com essa pessoa e temos uma filha juntos? Como assim, não estou num rally tascas da praxe? Ou numa aula de semiótica a revirar os olhos às cadeiras que são cadeiras que são cadeiras? É um bocado surreal para dizer a verdade, porque quando penso nessas coisas parece sempre que aconteceram no máximo há um mês. Mas o tempo é assim, passa sem darmos por ele. Que venham mais 30!