Uma mosca na parede
Sobre sair da zona de conforto. Depois há Rodriguez, dois irmãos, Friedkin e outros tópicos.
Uma das coisas mais interessantes de Tom Ripley, seja em que versão for, é a sua capacidade de transformação. Ou o seu desejo de ser os outros, mimetizando e reproduzindo os seus hábitos, tiques e manias - o que nos provoca alguma perturbação. Isso fica ainda mais evidente na bela minissérie de Steven Zaillian que adapta o primeiro romance da personagem criada por Patricia Highsmith, uma das raras séries de TV que gostei mesmo de ver e me surpreendeu nos últimos tempos.
Lembrei-me deste Ripley, que é Andrew Scott, não para falar de algum tipo de sociopatia, mas por causa do conceito de “fly on the wall”. Rapidamente vão perceber que nada tem a ver com a série ou os livros de Highsmith, a não ser por causa dessa curiosidade em relação ao mundo do outro, por isso não se preocupem. Não matei ninguém. Que eu saiba, pelo menos!
Pela segunda vez consecutiva, o ponto de partida deste folhetim é uma expressão “em estrangeiro” (prefiro dizer assim do que a formulação mais simples, “expressão inglesa”, porque me faz sempre lembrar aqueles tempos em que, na televisão portuguesa, se falava do fenómeno de artistas portugueses “cantarem em estrangeiro”, como se fossem uma cambada de alienígenas). Gosto da definição curta e incisiva do Urban Dictionary em relação a “fly on the wall”: “an unnoticed observer of a particular situation”.
E eu sou um pouco assim: gosto de observar situações exteriores ao meu quotidiano, com uma curiosidade quase semelhante à do realizador de documentários sobre a vida selvagem. Para conseguir resultados mais interessantes, gosto de passar despercebido. Isso é mais fácil quando são meios, ou interesses, que não costumam ser os meus - a probabilidade de me cruzar com alguém que conheça é quase nula. Mas apesar disso, vou conhecendo outras pessoas nesses outros ambientes, metendo conversa, interessando-me genuinamente por aquela conjuntura.
Curiosamente, não sinto, nestas situações, aquele desconforto ligado ao facto de estar “fora de pé”. Sinto mais isso em ambientes sociais rígidos, controlados, sem uma ponta de interesse ou surpresa. Desses sítios só quero fugir, meio embaraçado por não saber como agir, falar, etc. Nestes outros em específico, aqueles meios em que sou “peixe fora de água” mas em que fico contente por isso, só existo, ali, no meio das pessoas, a ver o que acontece - não de uma perspectiva fria ou analítica. Apenas com uma enorme curiosidade de saber para onde é que aquilo vai.
Tive duas situações de “fly on the wall” nos últimos tempos que se adequam a essa ideia:
A primeira foi numa noite de DJ set de metal no RCA, em Lisboa. Depois de um jantar com alguns amigos, um deles convenceu-nos a aderir a esse programa de fim da noite, até porque era o lendário António Freitas aos comandos - não sou um gajo que conhece o metal a fundo (apenas algumas coisas), mas sempre gostei dele, e lembro-me de apanhar na SIC Radical um programa seu chamado “Retro Rock”, já para não falar de incontáveis programas de rádio.
A outra situação foi a ver o filme “Paraíso” do Daniel Mota, no IndieLisboa, sobre um fenómeno de que sabia zero, as raves em Portugal nos anos 90, estando rodeado por malta que claramente conhece esse mundo.
Em ambos os casos, gostei de ser um “unnoticed observer”, a testemunhar as reacções das pessoas à minha volta. Na primeira situação, à música escolhida pelo DJ, e na segunda, às imagens do documentário, que suscitaram uma das sessões mais animadas e inesquecíveis que já presenciei numa sala de cinema.
Se a ida ao RCA foi feita com amigos, já à sessão de cinema fui sozinho, sem me cruzar com alguém que conhecesse. Gostei dessa liberdade, de poder descobrir o mundo dos outros, enriquecendo o meu e sem incomodar ninguém.
E assim vou continuando. Acho que, se algum dia perder esta curiosidade que orienta os meus dias, vou perder o tino. Preciso dela como de pão para a boca. E já fiz boas amizades, e conheci coisas muito boas, à conta destes acasos de descoberta espontânea e não programada.
Uma nota peculiar: No RCA, num dos momentos em que saímos do espaço para apanhar ar (e, confesso, descansar um pouco os tímpanos), um miúdo veio falar connosco, perguntar se conhecíamos uma determinada banda. Rapidamente percebi que o rapaz estava a provocar os dois amigos que estavam atrás dele, que ficaram extremamente embaraçados quando ele veio ter connosco falar daquela banda que ele próprio desconhecia.
A rapariga desse trio disse que eu, de perfil, parecia “o gajo do Taxi Driver”. De todas as (pouquíssimas) ocasiões em que alguém me disse que o meu focinho tinha parecenças com o de outrém, nunca o nome do Robert de Niro surgiu. Fiquei agradecido, mas ao mesmo tempo assustado: é que não era o actor de Niro tout court, mas naquele filme em específico. Será que tenho um ar, enfim… especial? Calma, eu não tenho armas em casa, pessoal. Está bem?
Mas a lembrança de Travis Bickle é uma boa forma de tentar fechar esta divagação. Também ele é um espectador daquilo que o rodeia. Mas isso leva-o a uma espiral de acontecimentos terríveis que, claro está, não são o objectivo do meu comentário sobre ser-se uma mosca humana.
No entanto, isto leva-me a pensar que esta curiosidade tem de ser equilibrada. É porque posso gostar deste tipo de situações, mas com ponderação: também aprecio a minha vida normalzinha, com as minhas rotinas, as coisas de que gosto às quais vou sempre acrescentando coisas novas, os meus amigos e os meus “círculos”, digamos assi. Não tenho o objectivo de me tornar totalmente invisível. No fundo, é isso que cria histórias como as de Tom Ripley e de “Taxi Driver”.
Mas faço-vos o convite: quando foi a última vez que se sentiram fora da vossa zona de conforto? Vale a pena, digo-vos. O “sofá” vai estar lá sempre, para irmos voltando ao nosso “lugar” quando mais precisarmos dele.
O que se recomenda…
… de filmes
Do sítio em que estou sentado, na sala de estar da minha casa, vejo uma prateleira com DVDs em que o de "Savages" salta à vista. Estou para o rever desde que, há uns anos, o descobri para um artigo em homenagem ao actor Philip Seymour Hoffman (de quem eu tenho muitas saudades) no Espalha-Factos, publicado alguns dias depois da sua morte. Foi uma bela viagem, apesar da razão triste que a motivou: vi alguns filmes maravilhosos que ainda hoje se mantêm bem vivos no meu coração. Este foi realizado por Tamara Jenkins e tem Hoffman e Laura Linney, dois irmãos que têm de voltar a lidar com o pai, duas décadas depois de terem deixado de falar com ele. Relações tensas, contradições, um drama impressionante e, ainda, menos visto do que merece.
… de livros
Hoje não há BD por aqui (também dá para ir variando, não?), mas mais cinema. Aproveito para vos recomendar um dos melhores livros sobre o tema que li. É a autobiografia de William Friedkin, realizador de “The French Connection”, “The Exorcist”, “Sorcerer” e outros filmes impressionantes. Uma escrita honesta, que aponta os erros, os arrependimentos (e abre logo “a matar” nesse campo), as histórias de uma vida cheia, os grandes sucessos e os retumbantes fracassos. Belíssimo livro.
… de discos
Só vi "Searching for Sugar Man" mais de uma década depois de ter sido lançado - o DVD ficou anos à espera de ser visto, mas o conhecimento da existência do documentário (desde que saiu nos cinemas, praticamente), levou-me nos entretantos a ouvir, e amar, os dois discos desse artista misterioso e fascinante, que encontrou um êxito colossal fora dos EUA. Mas há uns anos que não ouvia Rodriguez, e voltei a "Cold Fact" porque finalmente encontrei um exemplar para figurar na minha colecção. Que belo reencontro! Não foi a minha companhia de escrita (hoje inovei, e parte deste folhetim foi arquitectado ao ar livre, numa esplanada, e a outra em casa mas sem música de fundo), mas foi tão bom, há uns dias, chegar a casa e pôr a tocar “Cold Fact”. Gosto muito deste disco e do segundo e último de Rodriguez, “Coming From Reality”. Que pena ele não ter gravado mais nada. Mas com apenas dois trabalhos, deu-nos um mundo imenso.
… de vídeos
O realizador Charlie Shackleton está em Portugal por causa do IndieLisboa. Fui convidado a participar numa conversa com ele moderada pela Ana Cabral Martins, que vai acontecer amanhã às 17 horas na esplanada da Cinemateca (apareçam!). Por causa disso, andei mergulhado, nos últimos dias, na filmografia deste rapaz. Entre longas e curtas, destaco este trabalho que está disponível no YouTube: "Fish Story" fala de memórias que podem não coincidir com a realidade e pessoas que têm apelidos que são nomes de peixe. São 13 óptimos minutos.
… de outras ligações
O “Live at Pompeii” dos Pink Floyd foi agora relançado numa edição restaurada, remasterizada e outras coisas terminadas em “ada”. Vale a pena ler este artigo sobre os bastidores desse filme-concerto mítico que, ao contrário do que algumas pessoas pensam, não foi totalmente filmado em Pompeia.
Antes de irem embora…
Outras provas de que eu existo na internet:
Imperdoável é o podcast onde vou ver os filmes que já tinha visto. Esta semana, finalmente, regressei com isto, desta vez com mais um episódio a solo sobre “A Arca Russa”. Está nas plataformas de podcasts;
De Olhos Bem Fechados é o programa de bandas sonoras da Antena 1. Passa aos domingos às 23h e depois está na RTP Play. Volta a não haver episódio por causa das eleições, mas há oitenta viagens para ouvir por aqui;
Pranchas e Balões é o podcast semanal sobre BD da Antena 1. Esta semana veio o Luís Bernardino, falámos do CoimbraBD, de outras coisas e de seis livros. Podem ouvir aqui;
Mortinhos por Sair de Casa é o roteiro diário de coisas para fazer que passa às 17h40 na rádio. Continua ausente por causa das eleições, mas todas as emissões andam por aqui;
E hoje n’A Hora da Pop, o podcast da Antena 1 dedicado à cultura popular, recebo o Mário Costa, director de comunicação do IBERANIME, evento que faz 15 anos e que está quase a acontecer em Santarém. Também falamos de alguns detalhes da edição do Porto, em Outubro. Podem ouvir aqui;
E se tiverem Letterboxd, estou a ocupar mais espaço cibernético por aqui.
E por hoje é tudo. Amanhã, se conseguirem fugir do caos que se avizinha por causa do esférico que rola sobre a relva, apareçam na esplanada da Cinemateca. Senão, amigos na mesma! Obrigado e bem hajam.





