Sem culpa nenhuma
Sobre o prazer de gostar do que se gosta. Depois há conspirações, uma dupla, um escritor e outros ingredientes.
Recentemente fiz uma pequena experiência.
Por causa de um novo projecto que, em breve, talvez ouçam na rádio, fui repescar “The Long and Winding Road”, mas na versão nua.
Ou seja, em “Let It Be… Naked”, a versão do álbum dos Beatles que retira às canções a produção faustosa de Phil Spector. Com o passar dos anos, muita gente assumiu odiar a roupagem que esse homem bizarro deu ao alinhamento do último disco editado (mas não o último a ser gravado) dos Fab Four.
Foi assim que, já neste século, surgiu “Let It Be… Naked”. Já conhecia o disco, mas não o ouço de ponta a ponta há algum tempo.
Fui ao YouTube e ouvi, então, “The Long and Winding Road” nessa versão.
Muita gente considera que “Let It Be… Naked” veio devolver a dignidade a “Let It Be”. Como se os próprios Beatles não tivessem aprovado a produção de Spector. Como se tudo tivesse fugido das mãos do grupo, na altura o mais popular (e poderoso) do mundo.
A canção, com mais ou menos instrumentos e parafernália auditiva, resiste sempre. Ou talvez seja o meu lado pindérico e lamechas a falar.
Logo a seguir, peguei no “Let It Be”, não na remasterização mais recente, mas na de 2009, que gosto mais (excepto com “Abbey Road” e “Sgt Peppers”, neste caso a remasterização estéreo de 2017 é superior às antigas por, pela primeira vez, ser um estéreo propriamente dito, bem feito e condizente com as canções, não gosto muito dos novos trabalhos que têm sido feitos com outros trabalhos dos Beatles).
Queria ter uma comparação imediata entre as duas abordagens a “The Long and Winding Road” e, lamento… continuo a preferir a do álbum, com toda a abordagem melosa e sentimentalona à canção de McCartney.
Por mais que reconheça qualidades na versão “nua”, não consigo imaginar a canção sem aquele coro, a orquestra, o poder emocional que Spector deu à canção. É parolo, esse poder? Sim. Mas funciona melhor para a canção.
Talvez seja o efeito da primeira vez: descobri “The Long and Winding Road” muito novo, na colectânea “1”. Foi assim que a canção ficou marcada na minha cabeça, com aquele arranjo. Talvez se tivesse começado por “Let It Be… Naked”, a resposta hoje seria outra, e não teria capacidade para tolerar as pirosices de 1970?
É provável.
Mas não foi assim que a vida me conduziu. E percebi que não estou sozinho. Muitos comentários no YouTube indicam também a preferência pela versão original editada em disco desta e outras canções de “Let It Be”.
“The Long and Winding Road” deixa-me encantado na versão despida, mas emociona-me fortemente (às vezes com lágrimas e tudo) na versão do álbum. Sim, foi obra de um mestre da manipulação através do sentimentalismo. Mas que querem? Para mim, funciona. Sou uma pessoa simples.
(ok, só tirava o “yeah yeah yeah” no fim, não está ali a fazer nada. Mesmo assim, toda a sentimentalice da produção de Spector não me afecta)
A primeira vez, o primeiro contacto com um objecto artístico e as repercussões do seu contexto, tem um efeito que não é, mesmo, de desprezar. Até hoje eu não consigo ver “Toy Story” na versão original. Para mim, o Woody não é o Tom Hanks, mas sim o Miguel Ângelo (que escolha tão peculiar, mas ao mesmo tempo tão certeira, de casting). Não dá. As vozes são tão diferentes e, no meu imaginário, o Woody só fala em português.
Temos de aprender a lidar com o nosso gosto. Com as nossas falhas. Com aquilo que gostamos que parece ser odiado pelo mundo inteiro.
Não acredito em “guilty pleasures”. Isso é uma desculpa para uma pessoa se sentir legitimada por gostar de “coisas duvidosas”.
Ainda ontem, em conversa com colegas no trabalho, trocávamos bolas sobre José Cid e, da piada que gera a referência à canção “Amar Como Jesus Amou”, eu confessei que acho “Cai Neve em Nova Iorque” um bom tema. A letra transporta-me logo, de uma forma muito viva, para o cenário que pinta.
Talvez vocês se estejam a rir do que eu acabei de escrever. Mas se vivemos num mundo em que se recupera a música do José Pinhal (com alguma pós-ironia, é certo - aquilo que matou tudo), também posso assumir isto. E já agora, a “Bola de Cristal” que ele canta… é do Cid.
Por falar em prazeres ditos como culpados: confesso que, até há bem pouco tempo, me irritava a “Solsbury Hill” de Peter Gabriel. A culpa não era da canção propriamente dita, mas talvez porque, na minha cabeça, ficou associada a anúncios de automóveis e a um sentimento alegropulicitário que mina muitos temas da pop e do rock (e em 2025 isso será ainda mais evidente, com tantas grandes bandas e artistas a venderem o seu catálogo ao deus-dará).
Para mim, “Solsbury Hill” era uma piada, a canção que associava à típica família feliz de plástico que aparecia nos reclames da televisão. Acho que esse sentimento é tão partilhado por mais pessoas que, até num vídeo que tenta imaginar como seria o “Shining” se fosse uma comédia, a canção lá aparece.
Mas nunca é tarde para mudar de opinião.
Gosto muito de outras coisas do Peter Gabriel, inclusive de outras canções do seu primeiro álbum a solo, o do carro. Decidi comprar, então, o disco numa edição em vinil e ouvi-lo de ponta a ponta.
É impressionante como algumas canções se destacam do alinhamento de um disco, mas que se tornam numa experiência diferente se escutadas nesse alinhamento.
Sim, continuo a não gostar do verso “my heart going boom boom boom”, mas agora gosto de “Solsbury Hill” sem pensar em anúncios televisivos ou em paródias do YouTube.
É uma bela canção, e gosto da forma como Peter Gabriel a descreveu: "It's about being prepared to lose what you have for what you might get ... It's about letting go”.
Dito tudo isto, um conselho: às vezes é difícil combater lugares comuns criados pela nossa cabeça. Mas o prazer criado pelas canções, por mais ou menos levadas a sério que sejam, é único a cada um de nós. Deixem-se levar pela pirosice.
Acordaram com uma canção das Bananarama na cabeça? Ninguém julga. Apetece-vos ouvir Modern Talking? Força nisso. Não acham os Delfins a pior coisa da música portuguesa? Ninguém vos vai bater.
Não é preciso sentir culpa de nada.
A não ser que tenham cometido um crime.
Bom… eu não sei quem lê isto, na verdade.
É melhor chamar as autoridades. Só para prevenir.
O que se recomenda…
… de filmes
Lembrei-me muito de “My Favourite Year” nos últimos dias. É uma pérola subestimada, e por isso aproveito para repescar um comentário que deixei no facebook sobre o filme, na altura em que o vi: “Nos anos 50, Errol Flynn foi o convidado especial de uma emissão de "Your Show of Shows", um programa televisivo de comédia apresentado por Sid Caesar, escrito por uma equipa onde se incluía Mel Brooks e emitido em directo, como era normal naqueles primeiros tempos do pequeno ecrã. Segundo se conta, a antiga estrela dos filmes de capa e espada, nessa época meio caída em desgraça, apareceu no estúdio sem uma réstia de sobriedade. Este pequeno caso caricato e meio banal (se tivermos em conta as peculiaridades do showbiz) foi o ponto de partida para "My Favorite Year". Peter O' Toole faz de Flynn mas com outro nome - mas é óbvio que no seu Alan Swann encontramos muitas semelhanças com a inspiração. Encarna exemplarmente o misto de emoções sempre em transformação de uma personalidade em cacos. O álcool, os problemas familiares e a desorientação com o que o rodeia fluem melodiosamente com os momentos em alta deste reformado ícone das matinés: a amizade com um dos argumentistas do programa, a criação do sketch para o qual foi convidado como guest star, a inteligência e argúcia das suaa reflexões sobre o mundo e os pequenos flashes que fazem a velha glória ressuscitar por vários instantes. É curioso que um filme que lida com uma personagem tão decadente não transmita tanto essa decadência aos espectadores. É tudo tão rápido que não temos tempo para isso, tanto no desencadear da narrativa como nos multidão gags visuais e na energia do desempenho de O'Toole. É uma velocidade semelhante ao da produção de um programa de televisão, sempre atrasada e em que tudo pode acontecer, mas que já não interessa para nada assim que termina a gravação e rodam os créditos finais. Oxalá que todas as velhas estrelas tivessem o momento de revelação que Swann descobre no fim da jornada. Mas isto é só um filme, o que obriga a um princípio, um meio e um fim para desenlaçar todos os nós arquitectados previamente. Como todos sabemos, a vida não funciona mesmo assim. Mas se não fosse isso, não teríamos uma belíssima comédia como esta.”
… de livros
Gosto muito da série “The Department of Truth”, com argumento do James Tynion IV e um estupendo trabalho visual de Martin Simmonds. É uma história sobre o poder das teorias da conspiração, num mundo em que uma mentira mil vezes repetida, e acreditada, pode tornar-se real. É desafiante pela narrativa complexa e os desenhos que tanto nos perturbam como emocionam, é uma obra invulgar que, como acontece com muita coisa boa, não está editada em Portugal. Enfim, a série continua a ser publicada em revista e, até agora, saíram 5 livros a reunir vários capítulos. O último saiu mais recentemente e foi, para mim, o melhor até agora, fazendo uma espécie de prequela à série e a uma das personagens centrais: Lee Harvey Oswald (sim, ele mesmo). É uma das coisas mais interessantes a sair actualmente do circuito dos comics americanos. Não sei quando terá um fim (espero que não dure muito mais tempo), mas podem pegar no primeiro volume (este da imagem), experimentar e depois, tal como as colecções da Planeta DeAgostini, decidirem se querem continuar na droga ou não.
… de discos
“Elis & Tom” é daqueles discos que faz parte da minha vida quase desde que nasci. Companhia recorrente em diversas viagens de carro Lisboa-Porto e Porto-Lisboa com os meus pais, polvilhadas por um cocktail musical que ia das rádios musicais (como o Rádio Clube Português, que no início dos anos 2000 ainda existia). Nas primeiras vezes, não sabia, obviamente, quem era uma e quem era o outro. Era muito novo. Mas as canções ficaram e, em parte, um certo fascínio pela música brasileira deve-se à escuta incessante deste disco, mais tarde por minha própria iniciativa e várias dezenas de vezes. Um encontro de gigantes que podia ter corrido muito mal (vale a pena ver o documentário com imagens inéditas das gravações, lançado entre nós pela Midas nos cinemas e que, por agora, anda nos videoclubes e em DVD), mas que deu origem a uma das fusões criativas mais singulares registadas num disco: celebração do repertório fascinante de Jobim e da voz inigualável de Regina, é uma festa para os ouvidos que, ainda hoje, visito com regularidade. É uma peça fundamental do meu percurso e, por isso, não me canso de a recomendar. Em 2019 escrevi mais coisas sobre “Elis e Tom” aqui.
… de vídeos
Dennis Potter é um autor que me fascina, tendo já visto algumas das séries e filmes que contaram com a sua criatividade e lido alguns textos. É o autor dos incontornáveis “Pennies From Heaven” e “The Singing Detective”, ainda hoje séries únicas e irrepetíveis, exemplos de uma real “era de ouro” da televisão, desafiante em horário nobre para as massas, e não num canal de cabo mais exclusivo, ou a serem mera carne para canhão numa plataforma de streaming. Pouco antes de morrer deu uma longa entrevista em que fala do fim iminente (foi diagnosticado com um cancro no pâncreas), e ao longo de uma hora discorre sobre a vida, os seus projectos, e o que fica de uma carreira imensa e, ainda hoje, difícil de catalogar. Vale mesmo a pena verem esta conversa, que me faz ter saudades de quando a televisão também era isto: momentos de diálogo sério e com pausas, sem medo de entrar em territórios desconhecidos. Num mundo em que toda a gente tem podcasts e acha que tem alguma coisa interessante para dizer, é bom voltar a ouvir quem realmente importa. Aplausos para o utilizador português que resgatou esta entrevista de uma VHS gravada da emissão da RTP2. Saudades deste tipo de legendas!
… de outras ligações
Acho que nunca tinha ouvido falar de Pedro M. Ruivo e da sua longa-metragem invulgar, descrita neste artigo que sugiro hoje como “Ficção científica, distopia, um mundo pós-apocalíptico, deambulações adolescentes ao deus-dará que ainda hoje criticam o presente”. É mais um caso, entre muitos, de filmes portugueses curiosos mas perdidos em embróglios legais, estupidamente inacessíveis, e mais um realizador que não pôde continuar porque não lhe foi possível fazer frente ao sector, tão injusto e elitista, do cinema português. O José Oliveira fez uma longa, e franca, entrevista ao realizador, que me fez ficar com muita curiosidade de ver “A Força do Atrito”. Podem ler aqui.
Antes de irem embora…
Outros estaminés em que fico a palrar:
Imperdoável é o podcast onde vou ver os filmes que já tinha visto. Esta semana devia ter havido episódio (estava gravado), mas não o consegui montar a tempo de quarta-feira. Resultado: sai na próxima semana. Isto de trabalhar com áudio o dia todo e chegar a casa para trabalhar com mais áudio começa, ultimamente, a ser questionado na minha cabeça. Enfim, mas todos os episódios estão nas plataformas de podcasts;
De Olhos Bem Fechados é o programa de bandas sonoras da Antena 1. Passa aos domingos às 23h e depois está na RTP Play. Pode ser que haja episódio este domingo (a emissão da Antena 1 será uma incógnita até à hora), mas todos os episódios já feitos estão aqui;
Pranchas e Balões é o podcast semanal sobre BD da Antena 1. Esta semana houve o registo de uma conversa ao vivo no Festival Contacto, com o Cassiano Soares da Sendai Editora e o André Araújo da Dangan Magazine. Podem ouvir aqui;
Mortinhos por Sair de Casa é o roteiro diário de coisas para fazer que passa às 17h40 na rádio. Todas as emissões andam por aqui;
E hoje n’A Hora da Pop, o podcast da Antena 1 dedicado à cultura popular, recebe o escritor e jornalista Álvaro Filho para falar da História da literatura policial, através da série “Monsieur Spade”, disponível na FILMIN. Podem ouvir aqui;
De vez em quando lá aparece um episódio meu no Mesa Para Dois, o programa diário às 20h da Antena 1 em que várias vozes da rádio convidam pessoas para jantar. Na segunda-feira passou uma conversa minha com o dramaturgo e encenador argentino Claudio Hochman. Está aqui.
E se tiverem Letterboxd, vou loggando filmes por aqui.
E por hoje é tudo. Este folhetim chegou com uma semana de atraso - começou a ser arquitectado na sexta-feira passada, mas com viagens e trabalho nessa altura e um começo de semana atarefado de seguida, preferi deixá-lo para hoje. Desculpem qualquer coisinha. Cuidado com o calor! Obrigado e bem hajam.







James Tynion IV é atualmente. um dos melhores escritores de bd. Aconselho também Something is Killing the Children e The Nice House on the Lake, caso ainda não tenhas lido.
Passarei o dia a escutar The Long And Winding Road e Elis e Tim. 😂 Um abraço, Rui.