O direito a perder o que se passa
Algumas ideias sobre um certo fenómeno sociocultural. Depois aparecem os irmãos Coen, uma BD portuguesa e corações partidos.
Há um momento de “On Falling” que guardei com mais intensidade na minha memória: enquanto seguimos o dia-a-dia dos trabalhadores de um mega-armazém de uma amazon ou similar, testemunhamos a apatia daquelas pessoas, zombificadas a olhar para o telemóvel enquanto sobrevivem e tentam encontrar uma forma de aguentar o resto do dia.
Parte dessa zombificação em massa tem uma componente fundamental nas “séries do momento”. Os trabalhadores perguntam uns aos outros se viram o novo episódio de cicrano ou de beltrano, em que temporada vão, etc.
Às séries do momento associa-se um acrónimo que é um fenómeno deste nosso tempo acelerado, complexo, difícil de seguir a 100%: FOMO, o “Fear of Missing Out”. O receio de estar fora de pé, de não acompanhar as tendências, de se sentir excluído perante a voracidade das novidades.
Até entenderia esse conceito numa era pré-internet, em que seria praticamente impossível não ver, ler, ouvir o mesmo que a maioria das pessoas. Aqueles momentos em que toda a gente se ligava à televisão para ver um episódio de “Twin Peaks” ou a “Gabriela”, e que seria o tema de todas as conversas no almoço do dia a seguir, ou enquanto se espera que o café matinal saia da máquina.
Mas em 2025, seriam necessárias, no mínimo, umas quatrocentas existências terrenas para estar a par de todos os livros, filmes, séries e discos que saíram - apenas - na última hora.
Claro que o tal medo (em estrangeiro e tudo) não acontece com tudo o que sai, mas com alguns produtos “seleccionados”, que chegam às bocas do mundo e que quase somos obrigados a engolir sem pestanejar.
Na verdade, os novos fenómenos de popularidade da era do streaming não diferem muito dos do tempo da televisão de quatro canais. Apenas são mais absurdos pela multiplicidade de ofertas e propostas que temos hoje à disposição.
Mas impõem-se com mais violência. Se já sentiram essa pressão para ver uma coisa porque toda a gente está a ver, sabem as propoções intensas que pode ganhar.
Qual é a solução?
É não ter medo de estar a perder alguma coisa. Porque vamos perder a maioria das coisas.
Parece simples, e é, na verdade. Mas pode ser difícil, eu sei.
Mas só percebemos o quão prejudicial é este sistema de vaivéns culturais quando já experimentámos a bolha mediática que os provoca, que põe toda a gente a ver, ler, ouvir a mesma coisa e sentir necessidade de o afirmar, como se tivéssemos acabado de receber o baptismo num novo culto. E depois, só uma de duas reacções é possível: ou ficar demasiado excitado ou demasiado irritado. Ou dizendo de outra forma: aquela série/filme/livro/disco é a melhor coisa do mundo, ou a maior merda de sempre. Não se esqueçam é de partilhar nas vossas redes, antes que seja tarde - ou seja, quando o fenómeno morrer e tivermos passado para o próximo alvo.
Assim possibilita-se a quem não sofre de FOMO saber minimamente o que se anda a passar. Eu nunca vi “Game of Thrones” mas conheço todos os episódios mais famosos, do noivado sangrento ao final que toda a gente odiou. Quando podemos reduzir um produto artístico a meia dúzia de clichés repetidos em milhares de posts, não só cancelamos o pensamento crítico em prol da mentalidade da “carneirada”, como não estamos a respeitar o trabalho envolvido na produção destas obras.
A polarização chegou à cultura. Não é algo recentíssimo, eu sei, mas a cada dia se torna mais cansativa.
Uma semana depois de tanto sermos bombardeados com a next big thing, tudo cai rapidamente no esquecimento, como se nunca tivesse existido. O objecto que tanto suscitara, ainda há pouco, acesas paixões como ódios igualmente intensos, já não tem qualquer importância.
E eu? Eu desisti. Já não quero saber.
Medo de quê? O que é que eu estou realmente a perder? Provavelmente nada.
Por isso aproveito para dizer, com a maior dignidade possível, que não vi “Adolescence”, “The White Lotus” ou as últimas temporadas de “Black Mirror”… e assim sucessivamente.
Está a fazer agora dez anos disto, um trabalho que fiz para Géneros Televisivos, cadeira da licenciatura em Ciências da Comunicação da FCSH. Em 5 minutos podem contemplar um amadorismo atroz e uma metáfora inteligentíssima: as personagens deste pequeno filme estão a ver a mesma coisa em dispositivos diferentes… um ecrã negro com a palavra “merda” em letras brancas. Aaaah, a complexidade filosófico-existencial de tamanha ideia!
Mas é engraçado como se passou uma década e a coisa intensificou-se: vemos todos o mesmo porque temos medo de surfar fora da onda dos outros.
Não se aflijam, amigos. Não vale a pena haver choro ou ranger de dentes. Está tudo bem.
Eu sei que não sou o único que não leu a tetralogia da Elena Ferrante.
Eu sei que há mais pessoas que não viram a “Casa de Papel”.
Eu sei que vocês já tiveram de fingir que conheciam pelo menos uma canção da Taylor Swift.
E isto é normalmente confundido com pretensiosismo. Nada disso! É só porque o tempo é curto, e não tenho como prioridade ver aquilo que uma entidade tão vaga como perturbadora denominada de “massa” (populacional) decidiu que seria o tópico da semana.
Num podcast muito famoso (e que, de certa forma, também se enquadra nesta ideia de FOMO), discutia-se um desafio peculiar: “preferias ficar com tudo o que já foi feito e não ter acesso a coisas novas, ou só conheceres as novidades de hoje em diante e nunca mais ter acesso ao passado?”.
A resposta dos intervenientes desembocou na segunda opção. Eu fiquei surpreendido: o passado é um mundo em constantes (re)descobertas. Quantas coisas estamos agora a ver/ler/ouvir pela primeira vez que passaram completamente ao lado de gerações?
Não sou fã da ideia de “passar o teste do tempo”, porque há coisas que são interessantes precisamente por estarem datadas, desligadas da nossa realidade.
Mas uma coisa é certa: um filme com 30 anos tem, lá está, uma certa idade. Passou por muito. A série-que-toda-a-gente-anda-a-papar-e-a-chamar-de-obra-prima-ou-bosta-colossal-desta-semana é demasiado recente para sabermos se tem mesmo algum mérito para lá do fogo de vista mediático e violento que a rodeia.
Dito isto, há coisas que me interessam ver - “Adolescence” é uma delas. Gosto de outros trabalhos com os mesmos actores e realizadores. Mas agora não me apetece. Tenho ali para ver uns filmes de ficção científica moldavos protagonizados por um sagui. É a minha prioridade.
Falamos daqui a uns anos sobre o que vocês estão a adorar nesta semana. Pode ser?
O que se recomenda…
… de filmes
Estou numa situação que poderia ter saído de uma sitcom dos anos 90, se não fosse uma realidade para muitas pessoas: as vicissitudes da vida, e do preço das casas, fizeram com que ainda esteja a viver com a minha ex uns cinco meses depois da relação terminar. Enfim, damo-nos bem, e preferi tê-la cá mais tempo do que aventurar-me com um novo roommate (esteve quase para acontecer no início do ano, mas felizmente travei a tempo antes que desse asneira da grossa - uma história que contarei noutras núpcias). Ela sairá em breve, e eu decidi que, depois disso, vou viver sozinho - felizmente a renda não é assim tão alta, mas este passo vai obrigar-me a um quotidiano mais monástico (como se, até agora, eu passasse os meus dias a jantar em restaurantes estrelas Michelin e a ocupar os meus tempos livres a tratar de uma colecção de carros clássicos). Por vezes chego a casa e ela está a ver um filme que eu conheço: é porque vai dando uso à minha colecção de DVDs e Blurays. No dia do apagão, contou-me que estava a ver “Blood Simple”, dos Coen. Acabou o visionamento dias depois, e eu aproveitei para ficar nos minutos finais. É daqueles filmes em que me lembro exactamente onde estava na primeira vez que o vi: em casa dos meus pais, no meu quarto com uma pequeníssima televisão CRT, depois de trazer o DVD de uma biblioteca. E recordo estar de queixo caído a ver esta obra de estreia dos irmãos. Ainda hoje considero este o seu melhor filme, que melhor ficou na versão Director’s Cut que retirou alguns minutos à duração original (podem confiar, eu pude vê-la anos mais tarde, numa cópia 35mm da Cinemateca, e de facto o ritmo saía um pouco prejudicado). Continua a não ser o filme mais conhecido dos Coen, mas merece mesmo ser visto - principalmente na melhor sala possível. É uma das melhores incursões pelo mundo noir fora do seu tempo, assombroso em todos os aspectos, e um dos filmes aos quais volto mais vezes sem pensar (aparecem-me imagens, frases, e canções da sua banda sonora).
… de livros
Fazer banda desenhada em Portugal já é um trabalho ingrato, mas mais ingrato é entrar por territórios humorísticos em BD. Mas há alguns autores a ter em conta neste campo, e um dos meus preferidos é o Paulo J. Mendes. Dono de um traço característico, é um óptimo contador de histórias e, ainda por cima, um exímio arquitecto de gags visuais e linguísticos. Deve ser, provavelmente, o melhor escritor da BD portuguesa, fazendo autênticos romances com a densidade do seu vocabulário. Tem três livros publicados pela Escorpião Azul e o quarto está a caminho. O meu preferido é “Elviro”, uma viagem a um Verão com um casal desavindo, sendo o homem da relação um fascinado por “tróleicarros”, e que se vai deparando com personagens caricatas, duplos sentidos e muitas bolas de berlim “faguinhentas”. É hilariante. Acho que está praticamente esgotado, mas mais dia menos dia surge a segunda edição - senão, podem espreitar “O Penteador” e o mais recente “O Atendimento Geral”.
… de discos
Diz a contracapa do CD que “Midnight Love” foi um disco em que Marvin Gaye “olhou para o seu coração ferido e encontrou a maneira de se curar”. É deste 16.º trabalho, o último antes da morte precoce e trágica do artista, que faz parte “Sexual Healing”, para mim uma das grandes canções, daquelas que se levam para a ilha deserta sem medo de ouvir vezes e vezes sem conta. Talvez por ser uma cura, uma metáfora de superação perante males amorosos (quem é que nunca os sofreu uma, e outra, e outra vez?), este acaba por ser um disco muito “funky” e divertido, com um conjunto de belos e inesquecíveis temas que eu não conhecia: logo a abrir com a explosão enérgica de “Midnight Lady” percebemos que estamos prestes a iniciar uma grande viagem, e depois do hit do disco há “Rockin’ After Midnight”, os saxofones melosos que adoro em “‘Til Tomorrow” e mais quatro faixas memoráveis (mais uns bónus, pelo menos nesta pequena rodela prateada e compacta). Foi uma óptima companhia para escrita deste folhetim. Quanto a Gaye, dizer ainda que gosto bem mais de “Let’s Get It On” do que de “What’s Going On”, mas são dois álbuns fundamentais.
… de vídeos
Tenho andado demasiado nos copos nas últimas semanas. Calma, sou um tipo bastante moderado na ingestão de bebidas, mas mais exagerado no tempo que utilizo em conversas que vão para mil e uma direcções, muitas vezes criadas pelo acaso, um amigo que conhece pessoa x ou y, ou novas pessoas que se cruzam na nossa vida e a mudam para sempre. E ontem, já não sei porquê, veio à baila numa conversa à mesa as “Conversas Vadias”, sempre com Agostinho da Silva e um entrevistador diferente. Que belíssima ideia de televisão: virar jogo ao contrário, e não vários entrevistados, mas mostrar diferentes formas de entrevistar. São deliciosas conversas estas, todas fascinantes, mas deixo aqui a que juntou o filósofo ao Herman. Todas as Conversas Vadias andam pelo YouTube, mas também estão disponíveis nesse site maravilhoso chamado RTP Arquivos.
… de outras ligações
A sugestão de hoje é bastante central(ista): a Mensagem de Lisboa tem alguns artigos aprofundados que, acho, são interessantes para qualquer habitante da cidade. Este é sobre as mudanças da Avenida da Igreja ao longo dos anos e o domínio actual de grandes marcas e franchises naquela zona. Tendo eu vivido sempre por perto, esta é uma avenida de frequentes passagens para mim, e talvez a minha preferida de toda a cidade. Um óptimo artigo do Álvaro Filho que podem ler aqui.
Antes de irem embora…
Outras coisas minhas que se encontram por aí:
Imperdoável é o podcast onde vou ver os filmes que já tinha visto. Esta semana voltou a não sair episódio novo - mas entretanto já gravei dois, o primeiro deles a solo, por isso na próxima semana volta tudo aos eixos. Entretanto há pouco mais de 30 episódios nas plataformas de podcasts;
De Olhos Bem Fechados é o programa de bandas sonoras da Antena 1. Passa aos domingos às 23h e depois está na RTP Play. Este domingo não há episódio, mas há oitenta viagens para ouvir por aqui;
Pranchas e Balões é o podcast semanal sobre BD da Antena 1. Esta semana recebi um outro Rui Sousa - este autor de BD, autor de “O Homem Que Queria Ser Howard Carter”. Podem ouvir aqui;
Mortinhos por Sair de Casa é o roteiro diário de coisas para fazer que passa às 17h40 na rádio. Vai andar ausente duas semanas, por causa das eleições, mas todas as emissões andam por aqui;
E hoje n’A Hora da Pop, o podcast da Antena 1 dedicado à cultura popular, recebo a Andreia Rocha para falar das ligações entre as redes sociais e os fenómenos culturais (e onde acabámos a falar do FOMO), e o Pedro João Santos apresenta-nos o universo de “Wicked” (livro, musical e filmes incluídos). Podem ouvir aqui;
E se tiverem Letterboxd, estou a alugar um quarto por aqui.
E por hoje é tudo. Amanhã e domingo acordo às 5 da manhã para sair de casa às 6, porque entre as 7 e as 13 estarei a fazer emissão na Antena 1. Desejem-me sorte - e que, acima de tudo, acorde a horas! Obrigado e bem hajam.






Só quero dizer que deu-me muito gosto ler esta publicação.