Nu integral
Tentativas de reflexões pessoalíssimas que deviam ficar numa gaveta. Depois há Sherlock Holmes, uma última ilusão e uma bella donna.
Permitam-me que hoje me ponha a filosofar um bocadinho.
“Mamã dá licença?”
“Quantos passos?”
“Todos aqueles que servirem para eu me expor demasiado nestas linhas.”
Na verdade, não sei o que escrever. Ou melhor: tenho uma vaga ideia do que queria ver aqui exposto, no folhetim desta semana. Não sei é se quero, neste momento, tratar do assunto.
Devia tê-lo feito ontem ou anteontem, quando tinha todas as emoções à flor da pele e pensei nisto - habitualmente escrevo estes textos na manhã da própria sexta-feira em que saem, mas este devia ter sido feito antes. Foi nessa altura que pensei: “esta semana quero fazer uma coisa pessoalíssima, contar o que me vai na alma, depender da bondade de estranhos para aturarem os meus disparates”.
Agora, já não estou tão convicto disso.
Quando uma pessoa escreve com regularidade, acho que é normal começar a associar o que sente com o que escreve.
Tenho muitas vezes esse problema: gosto de escrever “a quente”, para passar todas as emoções o mais rapidamente possível para o papel (ou o ecrã), antes que o momentum se desvaneça. Podem bastar quinze, dez, ou cinco minutos para que aquilo que tínhamos tanta urgência em escrever perca, de repente, todo o significado.
Sempre gostei da ideia de “escrita automática”, mesmo que isso envolva um resultado final caótico e difícil de perceber (já deram uma olhadela ao rolo original de “Pela Estrada Fora” e compararam-no com a versão editada para romance?). Mas tenho um certo apreço pela ideia do escrever imediatamente.
O problema é que, muitas vezes, é impossível fazê-lo. Talvez seja bom - já me livrei de deixar por escrito algumas coisas mais desagradáveis. Mas na verdade, sinto sempre que deitei uma parte de mim fora, como se não tivesse valor nenhum.
Mais vale escrever e depois logo se vê.
Se, depois de usarmos essa torrente emocional no momento certo, formos reler o que escrevemos, uma de duas reacções pode acontecer: ou avançamos com a publicação e partilha daquelas palavras para o mundo, ou então decidimos esperar uns dias para deixar arrefecer, e ver se, depois da “tempestade”, ainda nos identificamos com o texto.
Compreendo ambas as hipóteses, mas às vezes gosto de uma certa falta de ponderação. Provavelmente porque, na minha vidinha de todos os dias, a “magia da rádio” me fez treinar um músculo preparado para o imediato, o desenrrasca supersónico quando alguma coisa corre mal.
E mesmo que, dias depois, aquela reacção escrita a algo, ou a alguém, não nos faça qualquer sentido, ela não deixa de nos representar num determinado momento.
Não é bom ter esse registo?
Tenho esse confronto quase diário no Letterboxd. É engraçado quando abro a aplicação e, nas notificações, me deparo com pessoas a reagirem a pequenos ou grandes comentários sobre filmes que escrevi há cinco, seis ou mais anos.
Tanto posso ficar surpreendido pela positiva, por ainda me rever naquilo que escrevi, como noutros casos pode acontecer algo completamente diferente: eu já nem me lembrar de nada do filme, ou a impressão que ele me deixou, com o passar dos anos, ter ficado melhor ou pior do que está reflectido no que sobre ele escrevi.
(o efeito da memória na nossa apreciação das coisas deveria um dia ser estudado)
Vou ser sincero: foram alguns acontecimentos da minha última semana que me queriam levar a falar sobre determinadas coisas mais emocionais. Iria despir-me perante vós (metaforicamente, calma!), perdendo qualquer noção do distanciamento que existe entre mim e os leitores.
Aquilo que senti anteontem é que, em suma, queria fazer um grande texto (que, na nossa cabeça, nestes momentos, é sempre o texto mais necessário, e a nossa vida depende da sua concretização) a falar de palavras, do uso que lhes damos e de como há gente que, no seu dia-a-dia, resolve assuntos pessoais como se fossem reuniões de condomínio. De como não gosto de pessoas que resolvem problemas com mensagens, de uma maneira fria e calculada. De como não me identifico com a minha geração, ou da ideia que dela fazem, porque não tenho medo de atender ou fazer chamadas. De como prefiro resolver rapidamente um problema falando directamente com a pessoa em causa do que através de uma cadeia de emails. E de como não compreendo quem prefira esconder-se atrás de um ecrã para sentir uma superioridade. Tem a faca e o queijo na mão. Pode mandar uma bomba estupidamente bem orquestrada, com as palavrinhas certas, evitando o confronto, a imprevisibilidade da conversa.
Confronto esse que podia ser um diálogo, e até levar a outros pontos, mas… it’s what it is.
Não tenho medo disso. Não tenho medo de ser sincero, por vezes “com toda a frontalidade”, com alguma coisa de que não gosto. Não acho que haja uma idade-limite para engolir sapos. Ninguém deveria ter de o fazer.
Mas sabem o que é? Porra, devia ter escrito este texto há dois dias. Ia ser incrível.
Ou então arrepender-me-ia daqui a uma semana.
Mas ficava disponível na mesma.
Assim, fica só a ideia no ar. E prometo que, numa próxima vez em que quiser despir-me, será integral (novamente, é só uma metáfora).
O que se recomenda…
… de filmes
Tenho em andamento o desejo de ver toda a série de filmes de Sherlock Holmes com Basil Rathbone e Nigel Bruce. Até agora vi oito e tem sido um prazer, ver estas produções que passaram, rapidamente, a filmes curtos low budget depois de dois filmes mais “clássicos” e fiéis ao espírito da personagem de Arthur Conan Doyle. Depois disso, Holmes e Watson andaram a espiolhar para os Aliados na II Guerra Mundial, mas depois disso já os encontro, novamente, em aventuras mais detectivescas. Entre os que vi, o meu preferido é “The Spider Woman”, inspirado numa miscelânea de histórias e com uma personagem feminina acutilante. Está um bocadinho acima do aspecto rotineiro que estas séries de filmes acabam por ter, pelo simples facto de ser mais criativo e divertido. Encontram facilmente toda a série no YouTube, em variadíssimas versões. Mas vale a pena ver os filmes por ordem cronológica (e ainda me faltam uns quantos para terminar a façanha).
… de livros
Não estou a fazer nenhum favor ao Pedro Miguel Ribeiro por vos recomendar este livro. Somos colegas há três anos na Antena 1, e com ele já fiz muitos projectos e vivi muitas experiências divertidas. Mas esta é uma recomendação genuína. Em 2023, ele deu-me a ler uma das versões deste seu romance agora publicado, para dar a minha opinião. Tinha outro título e outra dimensão. Li-o com prazer e fiz algumas sugestões. O Pedro nunca pára de me surpreender, e espero que este livro chegue a muita gente. Ainda não li a versão agora publicada (chama-se “A Última Ilusão”), mas da que o Pedro passou ficou-me a impressão de uma óptima história, um misto de literatura e linguagem cinematográfica, com alguns pedaços de óptima escrita. Que os preconceitos em relação à chancela em que o romance foi editado não vos impeçam de fazer uma descoberta tão interessante como esta.
… de discos
Apesar de gostar dos Fleetwood Mac, conheço muito mal a carreira a solo de Stevie Nicks, apesar desta sua estreia em nome próprio ter sido um sucesso colossal. Uma visita recente (mais uma) à Tubitek fez-me encontrar “Bella Donna” em CD a preço de pechincha. Ouvi o disco quando cheguei a casa e que bela surpresa. Não fica nada atrás do melhor dos Mac. Canção preferida? “Edge of Seventeen”, um boost de energia fenomenal e muito bem colocado a meio disco (até melhora a canção nessa posição).
… de vídeos
É preciso terem conta no YouTube para verem este vídeo, mas como tenho percebido que há muita gente que não conhece os melhores 90 segundos da História da televisão portuguesa, aqui fica para descobrirem.
… de outras ligações
Gosto muito de ler os textos do Samuel Andrade, projeccionista da Cinemateca, sobre questões à volta da película. Aqui podem encontrar uma série deles.
Antes de irem embora…
Outras coisas minhas que se encontram por aí:
Imperdoável é o podcast onde vou ver os filmes que já tinha visto. Esta semana convidei a Luísa Quinta para falar de “Naked Lunch”, um Cronenberg precioso que ainda tinha por ver. Está disponível nas plataformas de podcasts;
De Olhos Bem Fechados é o programa de bandas sonoras da Antena 1. Passa aos domingos às 23h e depois está na RTP Play. Domingo passa a 79.ª viagem, mas podem espreitar os episódios anteriores aqui;
Pranchas e Balões é o podcast semanal sobre BD da Antena 1. Esta semana voltou o companheiro quinzenal Luís Bernardino para falarmos de 6 livros e não só. Podem ouvir aqui;
Mortinhos por Sair de Casa é o roteiro diário de coisas para fazer que passa às 17h40 na rádio e depois anda por aqui;
E hoje n’A Hora da Pop, o podcast da Antena 1 dedicado à cultura popular, há uma conversa com a Anette Dujisin e o Stefano Savio a propósito da 18.ª Festa do Cinema Italiano (que já começou), e outra conversa com a actriz Sara Matos a propósito da série “Ponto Nemo” (mas, na verdade, acabámos mais por falar de outras coisas do que desse projecto). Podem ouvir aqui;
Há ainda outro programa que é assinado por uma dezena de vozes da rádio pública chamado Mesa Para Dois. São conversas à hora de jantar. Hoje saiu um episódio meu a falar com a Laura Carreira, realizadora de “On Falling”. Podem ouvir aqui;
E se tiverem Letterboxd, vou incomodando as gentes por aqui.
E por hoje é tudo. Desculpem a falta de jeito do folhetim desta semana. Beijinhos, abraços e muitos palhaços. Obrigado por terem lido isto e bem hajam.






Relaciono-me muito com esse conceito de ter urgência de escrever a quente! É uma espécie de ligação entre o sentimento e a mão que vai escrevendo (nestes casos, escrevo sempre à mão) e um quase-desligar do consciente e de tudo o resto.
Nunca partilho esses. Se forem sentimentos bons, vou reler e achar que são ridículos de felizes, meio infantis. Se forem maus, vou achar demasiado tristes ou amargurados.
Sinto que para partilhar preciso de os digerir primeiro. Ótima reflexão 🙌🏻
(Ah e nunca ficarias em nu integral, que ainda deves ter para aí uma peruca loira anciã como adereço 😂)
Gostei desta sessão “semi-nua” e fiquei curiosa com o que perdemos porque não escreveste isto ontem… nunca saberemos.
Obrigada pelas sugestões! (Achei graça ao revelares um preconceito com a chancela assumindo que os leitores têm um preconceito com a dita chancela. É uma chancela, como todas arrisco dizer, com bons e maus livros. É só preciso separar o trigo do joio.)