Médio mal passado
Algumas linhas sobre entrevistas mal amanhadas e algumas memórias. No fim há rádio no cinema e outras ideias.
Hoje quero falar de rap.
Perdão, do RAP.
Ainda me está atravessada a “entrevista” do último episódio do seu programa dominical que domina as audiências àquele horário, ensaduíchado entre um telejornal gigantesco que prepara candidatos à presidência da república, e uma versão de um concurso que já cheira a mofo que é o Family Feud.
Muito se pode dizer sobre a qualidade (ou falta dela) do segmento humorístico desse programa de RAP, mas vou centrar-me na “entrevista”.
Insisto nas aspas porque aquilo não é entrevista nenhuma. É um rol de punch lines ditas por um humorista que não está muito interessado em ter uma conversa. Isso até pode resultar com políticos que só querem ir à TV fazer campanha nada disfarçada, mas torna-se bafienta, aborrecida e negativamente surpreendente quando os convidados são de outras áreas que não a política ou o desporto.
Já tinha roçado o constrangedor há umas semanas com a sexóloga Tânia Graça, e no domingo passado voltou a acontecer com a chef Marlene Vieira. Não só por erros de palmatória (uma pesquisa de 2 minutos faria com que o RAP não tivesse feito uma pergunta sobre papas… quando a filha da chef tem 9 anos), como por revelar preconceitos que já não fazem sentido à volta do mundo da cozinha. Além de que, por duas ou três vezes, o apresentador estava mesmo perdido no seu guião. Pena, porque uma mulher com um percurso tão interessante teria dado uma óptima conversa.
Depois uma pessoa vê o The Daily Show e as entrevistas que o Jon Stewart faz, como esta. Tem humor, mas o que nos faz rir está no seguimento da conversa e não num pára-arranca provocado por perguntas formais mas “marotas” para as quais não interessa muito o seguimento, a discussão que poderia seguir-se à provocação. É a diferença entre um grande comediante e comunicador e um bom comediante que tem revelado, em várias instâncias, as suas limitações.
No filme “Intervista”, Federico Fellini utiliza o dispositivo da entrevista para se confessar, recordar a sua vida como o fez noutros filmes. Mas este é curioso porque parte da Cinecittà, onde estive em 2017, e por isso me fez recuar a esse verão em Roma. Este devaneio sobre o programa de RAP fez-me lembrar este filme, que vi há poucos meses. Espreito o letterboxd, onde escrevi até umas linhas consideráveis sobre ele, e apanho isto: "Este é daqueles filmes-apêndice, que parecem que não fazem falta nenhuma até ao dia em que percebemos que não podemos viver sem eles". A cada dia que passa, isto faz cada vez mais sentido. Há outra recomendação cinematográfica mais abaixo, mas fica aqui mais esta - nunca são demais.
Voltando ao tema-base deste folhetim: não estou aqui a fazer-me de supra sumo da arte entrevistadeira (quantos erros cometi, e cometo, nesse campo, quantas entrevistas gostava que fossem apagadas para sempre da internet), mas entristece-me que a arte de uma boa entrevista esteja algo esquecida no panorama português. Ou se banalizou a ideia de que basta pôr duas pessoas a falar sobre nada num podcast durante três horas, ou então há que fazer uma coisa formal, sensaborona, que não entusiasma nem diverte.
Claro que, depois de uma atrocidade como a do RAP no passado domingo, fica-se com vontade de rever programas como os de Stewart ou até os de Dick Cavett.
Descobri-o em tenra idade graças aos caminhos da internet, ao pesquisar no YouTube sobre um ou outro actor ou actriz e deparar-me com as suas participações nas conversas de Cavett. Ele continua a ser um exemplo de um excelente perguntador sem ser subserviente, sendo muitas vezes surpreendente e errando, claro, como todos erram (recordo-me de uma embaraçosa entrevista ao Eddie Murphy). Mas é a diferença de um profissional cometer uma falha e um tipo que, num programa formatado que raramente impressiona, traz uma convidada e nem se esforça em encontrar interesse no seu trabalho. É o que temos.
Pior mesmo só terminar uma entrevista com a pergunta “E projectos para o futuro?”.
O que se recomenda…
… de filmes
"A Prairie Home Companion" foi o último filme de Robert Altman. Fora o realizador e o maravilhoso elenco, é claro que eu tinha de ver isto por ser sobre um programa de rádio, o de Garrison Keillor, que é uma instituição há décadas no activo (agora sem ele, pelo que pude apurar). É a gravação de um programa de variedades em directo, aqui numa versão ficcionalizada com o Prairie a ter a sua última emissão, com os actores a trazerem vários projectos musicais, e Keillor a ser o timoneiro da empreitada. Gosto muito da forma como ele constrói a locução das suas frases, e o filme apanhou muito bem aquele repente que só existe na rádio: de um segundo para o outro estamos no ar e há que reagir com toda a naturalidade, porque na verdade tudo está igual - só se abriu a via do microfone. Bela homenagem a um programa fora de moda mesmo quando surgiu e que teima em prosseguir, contra ventos e marés, mesmo que a modernidade queira condená-lo por irrelevância.
… de livros
Este livrinho tem a transcrição do julgamento de Oscar Wilde e é uma leitura espantosa. Ele passou de bestial a besta na Londres vitoriana num estalar de dedos, de criador de sucessos teatrais e literários para uma figura olhada de lado por uma sociedade homofóbica. O julgamento acaba por ser, como o título do livro indica, uma defesa da arte, a liberdade de criar como se quer. Sabendo hoje o triste fim de vida do escritor genial, é bom ler aqui como, no meio da loucura daquela época, e deste ambiente repressivo e injusto, ainda conseguiu manter a sua wit característica. Um precioso documento histórico que se lê num ápice mas fica muito tempo connosco. Edição da Guerra e Paz e integrada na peculiar colecção de Livros Negros.
… de discos
Achei muita graça ao projeto do Bruno de Almeida do qual já saíram três discos - comprei o primeiro e foi aprovado de tal forma que acabei por ir buscar os outros dois à Flur. “Cinema Imaginado” são bandas sonoras para filmes que não existem, mas que bem conseguimos ver na nossa cabeça, enquanto ouvimos os temas do disco e a spoken word pelo próprio realizador, que nos leva por bairros cheios de problemas e histórias complicadas num cenário violento. Talvez os textos sejam, por vezes, desnecessários ou demasiado in your face, mas a escuta do primeiro disco foi deliciosa e espero, em breve, tratar das outras duas viagens áudio-sensoriais que este projecto propõe.
… de vídeos
Conan O’Brien apresentou os Oscars e percebo que fosse difícil contrariar o formalismo de uma cerimónia tão pomposa. Ele lá tentou trazer alguns laivos da sua loucura muito especial, mas senti-o quase sempre como se estivesse dentro de uma camisa de forças. Só quando apareceu a minhoca do “Dune” a tocar instrumentos é que senti que aquela cerimónia tinha algum do pendor dos tempos do “Late Night”. Mas é uma oportunidade (como se fosse preciso justificação) para partilhar um dos meus vídeos preferidos de todos os tempos: a “reportagem” do Triumph, o insult comic dog - e uma das criações mais engraçadas a povoar os programas de Conan - a fazer bullying com nerds de “Star Wars”, na estreia da segunda prequela. É hilariante e continua a sê-lo independentemente das vezes que veja estas imagens - e é obrigatório mostrá-las sempre que amigos dizem desconhecer este pedaço monumental de televisão. Momento preferido? Aquele em que o cãozito dá um spoiler terrível, não do então novo filme da space opera de George Lucas, mas outro, sobre a vida de um pobre coitado que só queria estar ali na fila, à espera da estreia.
Antes de irem embora…
Ficam outras dicas:
Imperdoável é o podcast onde vou ver os filmes que já tinha visto. Esta semana eu e o Ricardo Gonçalves falamos de “Yi Yi”. Este e outros episódios estão nas plataformas de podcasts;
De Olhos Bem Fechados é o programa de bandas sonoras da Antena 1. Passa aos domingos às 23h e depois está na RTP Play. O recente episódio sobre Jacques Demy (que acabou de ter uma nova versão remasterizada e não sei quê), e a viagem deste domingo termina com uma canção brejeiríssima de “A Prairie Home Companion”;
Pranchas e Balões é o podcast semanal sobre BD da Antena 1. Esta semana falei com a Sara Figueiredo Costa e o Zétavares sobre uma BD que assinalou os 20 anos da Peripécia Teatro. Anda por aqui;
Mortinhos por Sair de Casa é o roteiro diário de coisas para fazer que passa sempre às 17h40 na rádio e depois anda por aqui;
Na sexta-feira estreia A Hora da Pop, novo podcast da Antena 1 (sim, mais lenha para me queimar) dedicado à cultura pop e com um painel de oito comentadeiros.
E se tiverem Letterboxd, estou aninhado aqui.
E é tudo por hoje. Espero que esteja tudo bem desse lado. Divirtam-se, comam bem, vão sair, mesmo com a chuvinha lá fora. Obrigado e bem hajam.







Uma conversa sobre este assunto em breve num espaço podcasteiro perto de si!