Olho para a folha com as ideias rabiscadas para o folhetim de hoje. Não costuma ser assim, mas leio uma teia de palavras ligadas umas às outras, tópicos que se entrelaçam, um que levou a outro e esse a outro ainda e assim sucessivamente. Por vezes acontece: quem me conhece sabe como as minhas conversas vão sempre andando por aí, começando num sítio e terminando noutro completamente diferente. Mas também é verdade que gosto de fingir ligações entre assuntos, utilizando a expressão “Por falar em…” para, na verdade, remeter para algo completamente diferente.
Começo num táxi. Vou a caminho do Parque Mayer, para gravar uma entrevista. Não sei quanto a vocês, mas sempre que sinto uma abertura para isso, gosto de conversar nestas viagens.
Não esperava era que o motorista tivesse uma das histórias de vida mais acutilantes que conheci até hoje: andou por vários países, fez de tudo e viu tudo, andou metido em negócios muito diferentes, e tem os filhos bem encaminhados, com um deles a trabalhar para uma grande estrela da música internacional. E de cada vez que falava, não sentia nenhuma arrogância ou um tom convencido naquela voz, mas antes o de alguém orgulhoso pelo seu passado, feliz por ainda estar vivo e, claro, expectante em relação ao futuro das suas crias - e desejando poder viver muitos anos ainda, sempre com saúde.
Por falar em saúde (e não, não vou descarrilar para algo tão diferente assim - ainda), às tantas comentávamos o trânsito na cidade de Lisboa, de como as pessoas andam sempre cheias de pressa, não têm consideração pelos outros, aceleram nas passadeiras, etc. “Pior só vi em Roma”, disse eu, contente por conseguir fingir ter muito mundo (raras vezes saí de Portugal). O homem concordou. Descrevi-lhe como ainda me lembrava, apesar de já ter estado naquela cidade há oito anos, do olhar fulminante dos automobilistas à espera do sinal verde, a olharem para mim a atravessar à frente deles, como se eu pudesse ser um pino que eles, as bolas de bowling hipotéticas, tivessem de derrubar.
“Não compreendo porque é que a gente ‘tá sempre cheia de pressa”, disse o motorista. “Sabe uma coisa? Há uns dias um amigo do meu filho foi para fora, andava sempre numa vida louca, em viagens e festas, e de repente começou a sentir-se mal, foi ao hospital lá do sítio… e foi diagnosticado com uma leucemia. Repare, o rapaz só tem 23 anos! E de repente… pumba!, descobre aquilo”. Fez uma pausa e prosseguiu: “‘tá a ver? Esta gente sempre cheia de pressa, a achar que são os reis do mundo… de um dia para o outro”… e estalou os dedos.
Esta conversa ficou tão marcada na minha cabeça (e a minha descrição não lhe faz justiça) que, passada mais de uma semana, ainda penso nela. Fez-me escrutinar o meu próprio percurso e perceber como tenho medo de ser apanhado por alguma doença difícil de um momento para o outro. Mas também me fez pensar como, nos últimos anos, sou uma pessoa muito menos apressada e stressada. Pelo menos, a diferença hoje é que lido com os problemas como se fossem peças de um lego em altura, que vou colocando, uma de cada vez, centrando-me apenas nisso, numa única peça, e só pensando na próxima quando aquela estiver bem colocada na construção.
Por falar em pressa, isso faz-me pensar num filme. Chama-se “O Homem Apressado”, ninguém se lembra dele e, convenhamos, também não é particularmente espectacular. Foi um dos vários projectos feitos à medida de Alain Delon, para aproveitar o seu estatuto de estrela junto do grande público. Apanhei na Netflix há uns anos (e acho que ainda por lá anda), numa altura em que vi alguns filmes de Delon e percebi como, apesar de serem meros star vehicles, o actor meteu-se em projectos com algumas singularidades e que podiam, até, ser dificilmente vendáveis. Este é um deles. É sobre, isso mesmo, um homem cheio de pressa, sempre a correr, entre telefonemas, com o cérebro a mil. Faz impressão porque sentimos mesmo esse stress e que aquilo não é vida para ninguém. O final da narrativa parece, por isso, inteiramente credível e compreensível.
Nunca me esqueci d’”O Homem Apressado”, o que diz muito sobre como certos filmes, sem serem nada do outro mundo, acabam por dizer qualquer coisa especial sobre nós, marcam-nos de uma maneira pessoalíssima que não tem tanto a ver com o que vimos, mas com o impacto que aquelas ideias tiveram em nós. Para mim tornou-se um exemplo para o futuro: a minha vida pode ser muitas coisas, mas espero que nunca se torne naquilo. E por isso vou vivendo, “um dia de cada vez”, porque nunca se sabe quando a vida pode dar uma volta muito grande devido a algum imprevisto, a uma doença…
Por falar em doença, e voltando à leucemia: dias depois daquela viagem de táxi fui ver o filme “Siga a Banda”. É daquelas produções francesas comerciais, em que o argumento recai numa série de clichés fáceis (logo quando o filme começou, já previa a resolução da narrativa), mas que vive dos seus actores, da humanidade das suas interacções e de uma graça genuína e bonita. Temos um maestro diagnosticado com leucemia que precisa de um dador de medula óssea, e acaba por descobrir um irmão que não sabia que existia. Cria-se uma ligação peculiar entre duas pessoas tão diferentes, mas ligadas por uma paixão pela música - e o melhor do filme está nessa exploração entre sons e imagens, em que a sequência final é uma verdadeira apoteose. Um bom filme sem grandes ambições - mas de vez em quando também sabe bem uma comida saborosa mas requentada.
Por falar em música, um dilema recorrente que surge em conversas é se há verdade, ou mentira, naquele verso d’“A Paixão (Segundo Nicolau da Viola)”: será que se ama quem não ouve a mesma canção? Voltou esta questão há uns dias, numa conversa com várias pessoas. Pela primeira vez cheguei a uma conclusão diferente: dantes dizia apenas que toda essa ideia era um disparate. Agora acho que, quando as pessoas gostam muito uma da outra, acaba por haver uma curiosidade evidente sobre o mundo do outro - mesmo que seja tão absurdamente diferente do nosso. Não sei se acabamos por gostar das canções da pessoa amada, mas nunca deixaremos de as associar a ela. Nem que sejam os seus ódios de estimação.
Por falar em Rui Veloso: ontem saí da rádio e apanhei o metro até São Sebastião. Há já algum tempo que está lá um piano que toda a gente pode usar. E como passo várias vezes por aquela estação, vou testemunhando alguns momentos de belas interacções provocadas pela música: desde um nocturno de Chopin até a um tema do “Wicked”, é normal ver pessoas à volta do piano a assistirem a performances improvisadas, de transeuntes que sentiram a necessidade de passarem as mãos por aquelas teclas. Por mais horrível que seja o mundo lá fora, não deixam de me surpreender as coisas boas com que me vou deparando. Estes pequenos concertos encontram-se nessa categoria. E ontem, naquele piano, estava um rapaz a tocar, e a cantar, outra canção do dito Rui com o Carlos Tê: “Cavaleiro Andante”.
E é assim. Isto anda tudo ligado? Não sei, mas como prometi no início, começámos num táxi e acabámos no metro. E agora vamos apanhar ar, dar um passeio a pé e continuar a conversa, “ao vivo”, por outras estranhas ligações.
O que se recomenda…
… de filmes
Há filmes a que regresso com prazer, depois de muitos anos, porque da primeira vez ficou qualquer coisa por descobrir. Filmes que não adorei, mas que ficaram a matutar na minha cabeça até hoje. Foi o caso do “High Sierra” de Raoul Walsh, que não via desde a faculdade. E que bom foi voltar a ele e perceber que era melhor do que me lembrava. Superlativos os desempenhos de Ida Lupino e Humphrey Bogart - e como eu gosto destas produções da Warner -, com um desfecho magnífico. E nem sempre acontecia, mas aqui o título português é certeiro e dá que pensar: “O Último Refúgio”.
… de livros
A Raquel Dias da Silva (que já conheço há mais de uma década!) criou uma rubrica sobre banda desenhada no seu Substack. Nele elogiou o meu Pranchas e Balões (obrigado!) e lançou o repto para que eu também destacasse BDs por aqui. Aqui fica uma que amo de morte: a cada dia que passa sou mais fã de Dylan Dog, o detective do pesadelo, um britânico (mas é uma criação italiana) que se envolve em aventuras diabólicas e misteriosas, entre o terror e o thriller, sempre com o sobrenatural a dar o mote para as histórias. Esta é uma das melhores, pelo menos entre a quase-vintena delas que já li (e volto sempre a ele com prazer, tal como Umberto Eco). “O Velho Que Lê” fala mesmo disso, de um tipo obcecado por livros que desaparece no meio das personagens imaginárias que fazem os seus dias. É uma belíssima narrativa e uma homenagem à literatura, cheia de referências e com desenhos deslumbrantes. Está editada em Portugal pel’A Seita.
… de discos
A arte de fazer uma boa compilação é extremamente subvalorizada. Não servem só para espremer mais uns centilitros da vaca que representa metaforicamente o sucesso de um artista ou de uma banda. Há uns dias o João Lameira falava do significado das mixtapes, e mesmo que as compilações oficiais não tenham esse aspecto caseiro e mais pessoal, podem também ser uma viagem muito íntima por um universo musical, dando-nos a ouvir canções de outra forma, nem que seja pela sua disposição no alinhamento (e quão diferente é ouvir um tema mais à frente, ou mais atrás, num disco). “Pure McCartney” é um dos vários exemplos de compilações singulares que não me canso de recomendar. Porque tem os greatest hits mas, por vezes, noutras versões. Porque tem canções que não esperávamos encontrar. E porque é realmente uma viagem no tempo, quase uma imersão sensorial num universo musical e nas múltiplas fases do seu criador. Faltam algumas coisas? Claro que sim, e a obra de McCartney a solo é tão rica e intensa que seria impossível abarcar tudo o que vale a pena em dois CDs. Mas a viagem que este alinhamento proporciona é mesmo boa.
… de vídeos
Estava a ver qualquer coisa no YouTube sobre o mundo dos programas de late night e lembrei-me: “será que o último episódio do Tonight Show com o Johnny Carson anda por aqui?”. E como já devem ter percebido pelo link acima, a resposta foi positiva. É uma bela despedida do mestre. Se tiverem curiosidade sobre este mundo televisivo, é uma hora bem passada, e com alguns momentos emocionantes.
… de outras ligações
Não pensei voltar ao tema que esteve no centro do folhetim da semana passada, mas houve uma actualização importante: a defesa do João Pedro George perante uma estupidez cometida por uma figura pública nas redes sociais (quão raro isso acontecer!), numa das múltiplas reacções bizarras à polémica com Madalena Sá Fernandes. Sempre achei a coisa da “caça às bruxas” algo exagerada, mas cheira a isso neste caso. O texto está aqui.
Antes de irem embora…
Outras estações de serviço virtuais:
Imperdoável é o podcast onde vou ver os filmes que já tinha visto. Esta semana convidei o David Lucas Carrão para falar de “O Paciente Inglês”. Será que tivemos a mesma reacção da Elaine, no Seinfeld? É preciso ouvir o episódio para descobrir. Está disponível nas plataformas de podcasts;
De Olhos Bem Fechados é o programa de bandas sonoras da Antena 1. Passa aos domingos às 23h e depois está na RTP Play. Daqui a dois dias há bola e, por isso, não há novo episódio. Mas entretanto podem espreitar os mais de 70 episódios anteriores aqui;
Pranchas e Balões é o podcast semanal sobre BD da Antena 1. Esta semana trouxe uma conversa gravada ao vivo com o Miguel Ángel Martín, o André Diniz e o Fábio Powers. Podem ouvir aqui;
Mortinhos por Sair de Casa é o roteiro diário de coisas para fazer que passa às 17h40 na rádio e depois anda por aqui;
E hoje n’A Hora da Pop, o podcast da Antena 1 dedicado à cultura popular, falei com a Sissi Martins, encenadora e actriz da versão portuguesa do musical “Rent” que está em cena no Teatro Variedades, em Lisboa, e de seguida podem ouvir a Leonor Vasconcelos, o Miguel Guilherme e o Guilherme Branquinho a falarem sobre “Finisterra”, uma das novas séries da RTP. Podem ouvir aqui;
E se tiverem Letterboxd, vou pondo umas coisas por aqui.
E por hoje é tudo, olho para a câmara, pisco o olho e deixo-vos os melhores cumprimentos. Obrigado e bem hajam.








Gostei muito deste texto! E fico feliz por teres aceite o desafio de sugerires BD (agora vou ter de ir comprar mais uma!)