Enquanto houver ventos e mar
Reflexões suscitadas por este especial dia de Abril. Depois há Jean Renoir, mais Palma e outros ingredientes.
“Obrigado por estarem aqui a celebrar o 25 de Abril. Com ou sem papa.”
Quando Jorge Palma proferiu estas palavras ontem, a meio de um concerto comemorativo desta data no Palácio Baldaya, em Benfica, recebeu um aplauso geral do público. Muitos colocaram os cravos no ar enquanto ele continuava a falar (perdoem-me se a minha memória não for 100% fiel à realidade, nas palavras e construção frásica utilizadas):
“Vivemos num estado laico. Temos de ter cuidado: eles andam aí. Temos de estar mais unidos do que nunca. E podem sempre contar comigo. Mesmo que eu me sinta Frágil”.
Foi uma óptima ponte para a canção que se seguia no alinhamento da noite, mas também foram umas ideias que me fizeram pensar muito, nas últimas horas. Daí que hoje decidi dedicar este espaço ao 25 de Abril.
Lembro-me que a primeira vez em que pensei mais a fundo sobre este dia foi há 21 anos, no seu trigésimo aniversário. Estava eu a poucas semanas de completar nove voltas ao sol, e na televisão apanhei um qualquer programa dedicado ao dealbar da revolução. Ainda hoje me fascina esse processo, e toda a documentação existente que nos permite fazer um percurso, hora a hora, minuto a minuto, daquela madrugada que mudou tudo.
Muitos anos depois, já eu estou próximo de fazer 30 anos e o 25 de Abril tem 51.
Se há uma coisa que eu nunca imaginei que pudesse ser possível em 2004 ou 2014 era que a efeméride deixasse de ser considerada uma instituição. Sim, Palma tem razão: muitos querem deitá-la abaixo. E agora, como todos sabemos, já nem escondem essa intenção. Tornou-se mainstream. Jovens repetem-na. Diabolizam uma época que não viveram, idolatram quem sempre viveu num lugar privilegiado, olhando para o povo de soslaio, e ignorando os crimes de uma ditadura que vão para além das horríveis torturas, prisões e censuras. Salazar e companhia dividiram o país entre as elites e os outros. A ler as primeiras páginas do Público de hoje, novamente me confronto com histórias impressionantes de quem não podia estudar por viver no interior, das consequências de se manifestar uma opinião divergente, da miséria de um país cheio de analfabetos.
(Falando na parte das torturas: entrar no Museu do Aljube, chegar ao piso das celas e sentir um susto diabólico ao ouvir o telefone a tocar - aquele que estava sempre ligado para dar cabo da cabeça aos presos - é algo que toda a gente devia testemunhar.)
O 25 de Abril faz mossa nas cabeças de muitos. Mas é a data de todos, porque todos beneficiámos com a democracia. Mesmo a malta que agora apregoa, a plenos pulmões e sem qualquer discrição, o seu desdém pelo dia, preferindo o outro de Novembro, talvez não tenha noção de que muito do que fez (ou tudo, no caso de quem nasceu já depois desse dia), disse e construiu na sua vida se deve ao regime democrático em que vivemos. Mesmo as pessoas que, na última e na próxima eleição, foram para a cabine de voto e puseram a sua cruz em partidos que não apelam à democracia, não têm bem a noção disso, de que só podem mostrar a sua vontade de caminhar para um populismo assustador e vergonhoso porque, há 51 anos, um grupo de pessoas quis mudar “o estado a que isto chegou”.
O resultado das últimas eleições levou muitos à rua, manifestando-se contra o crescimento de um certo partido. Eu também desci a avenida, e farei o mesmo este ano. A comunhão que senti no ano passado, e também ontem, entre todos os que ouviam Jorge Palma, mostra que não estamos mesmo sozinhos. Não somos uma minoria. Temos de nos fazer ouvir, gritar pela liberdade. Por este sentimento inspirador que, pelo menos a mim, o 25 de Abril sempre me transmite.
Hoje não vos vou incomodar muito, porque espero que aproveitem este dia. Saiam à rua, aproveitem as mil e uma iniciativas que vão acontecer - não falemos das autarquias que foram na cantiga dos três dias de luto nacional e que cancelaram as suas festividades do 25 de Abril.
Aproveitemos este dia para perceber que país queremos.
Está visto que será difícil mudar a opinião de quem vota naquelas coisas. Já todas as razões foram dadas para mostrar como a solução não passa por esse tipo de partidos.
É acreditar que os eleitores, nas próximas legislativas, não tenham como barómetro de voto o tik tok ou os soundbites recortados por certos meios de comunicação social mais sedentos de “sangue” e audiências do que por um bom esclarecimento dos seus espectadores. E que percebam a importância do seu voto.
E que o 25 de Abril continue sempre a ser um belo dia.
O concerto terminou com “A Gente Vai Continuar” (cuja letra dá título a este folhetim), mas para terminar esta reflexão vale a pena pegar noutra canção, que também ouvi ontem no Palácio Baldaya:
Ai, Portugal, Portugal
De que é que tu estás à espera?
Tens um pé numa galera
E outro no fundo do mar
Ai, Portugal, Portugal
Enquanto ficares à espera
Ninguém te pode ajudar
O que se recomenda…
… de filmes
É curioso que sempre que penso no 25 de Abril, o primeiro filme que me vem à cabeça não é um título português do período entre o imediatamente antes e depois da revolução, mas sim uma obra de Jean Renoir estreada em 1943: "This Land is Mine" tem Charles Laughton como um professor conformado que acaba por se tornar numa luz de esperança em tempos sombrios. O filme tem uma história complicada com a censura portuguesa (como seria de esperar), e mexe com as nossas emoções com uma força particular. Vi-o duas vezes, uma em casa e outra, há uns anos, na esplanada da Cinemateca, e nessa ocasião nem o frio me demoveu de sentir todos os arrepios perante tamanho filme. As ameaças são outras das daquele tempo, mas continuam por aí, cada vez mais à espreita…
… de livros
Este pequeno livro fez-me companhia ao longo desta semana. Texto clássico de Marco Túlio Cícero, é uma reflexão sobre a amizade e o que torna uma relação duradoura. É de amizade que se faz, para mim pelo menos, a ideia do 25 de Abril (e não só por causa do “Traz Outro Amigo Também”, que Palma também trouxe no concerto de ontem). Apesar das óbvias diferenças temporais, muito do que é dito aqui mantém uma imensa actualidade. Bela edição bilingue da Gradiva preparada por Philip Freeman.
… de discos
Permitam-me mais umas linhas dedicadas a Jorge Palma. É um dos grandes, e dos artistas portugueses a que volto mais vezes no meu quotidiano. Falei há pouco da entrevista que lhe fiz em 2021, mas na verdade conheci-o antes, em finais de 2019. Ia para um espectáculo de stand up mas não tinha jantado, e como estava pela Avenida de Roma, decidi ir ao Frutalmeidas lambuzar-me com pastéis de massa tenra. Dirigi-me ao balcão e pedi essas iguarias, olhei para a minha direita e lá estava ele: o Palma, também a degustar o tal pastel. Detesto aquelas abordagens a figuras públicas que tantas vezes vejo acontecer, e pensei "das duas uma: ou não digo nada, ou tenho alguma coisa de jeito para lhe dar". E lembrei-me deste "Asas e Penas", que considero um dos grandes discos da música portuguesa e uma das obras primas do autor. Acabámos a ter uma animada conversa, também em parte porque Palma lembrou-se do papel de José Mário Branco na produção deste disco (falecera poucos dias antes). No fim, o dono do Frutalmeidas ainda queria oferecer mais um pastel ao Palma e a mim, achando que éramos próximos. Quanto ao disco: é de uma época de exuberantes arranjos, com alguns clássicos intemporais aqui a surgirem pela primeira vez ("Estrela do Mar", "Canção de Lisboa"), e outras pérolas a merecerem ser descobertas ("Missa dos Pássaros", "A Origem do Drama", "Lamento dum Traidor")... enfim, todo um alinhamento de 11 belas canções.
… de vídeos
Tinha um dilema depois do concerto de Jorge Palma: voltaria à rádio para despachar o trabalho pendente logo nessa noite ou hoje de manhã? Preferi ir ontem (e foi uma boa ideia, porque assim tive um tempo para escrever este folhetim), e encontrei a “turma da noite”, a malta que trabalha a esse horário naqueles estúdios, um ecossistema diferente do diurno - na minha opinião, para melhor. Meti-me numa conversa entre duas colegas em que referi ter visto esta entrevista ao Slavoj Žižek. Já não o ouvia há uns tempos (a overdose que levei na faculdade não me levou, no entanto, a esquecer-me dele), mas foi bom reencontrá-lo e ouvir as suas ideias polémicas, surpreendentes, corrosivas. Ele aqui fala desta era estranhíssima em que a falta de vergonha é a arma de uma certa política, e a possível solução para a esquerda voltar a destacar-se. Mas dizia eu, contava às minhas colegas que tinha visto este vídeo e percebia o argumento de Žižek, e dei a entender que tenho uma visão algo cínica e pessimista do futuro. Minutos depois, uma das minhas colegas, quando eu saí dali para entrar num dos estúdios, disse que eu devia manter alguma esperança. E eu disse que a tenho, apesar de tudo. Pelo que percebi nos comentários, houve alguma censura da parte da BBC (removeram uns comentários do pensador sobre a Palestina), o que nos devia fazer pensar mais ainda na importância de continuar a celebrar o 25 de Abril.
… de outras ligações
Os Talking Heads são uma das minhas bandas de eleição (um dia terei de falar deles por aqui), e “Stop Making Sense” é o filme-concerto que mais vezes vi e ouvi - duas vezes no cinema, outras em casa. Lembrei-me desta “oral history” dos concertos que deram origem ao magnífico filme de Jonathan Demme. Vale a pena ler aqui.
Antes de irem embora…
Outras coisas minhas que se encontram por aí:
Imperdoável é o podcast onde vou ver os filmes que já tinha visto. Esta semana não houve episódio - falha minha, esta dinâmica tinha de falhar mais dia menos dia. Mas há 30 e poucos episódios nas plataformas de podcasts;
De Olhos Bem Fechados é o programa de bandas sonoras da Antena 1. Passa aos domingos às 23h e depois está na RTP Play. O episódio do próximo domingo é com Carlos Ramos, um dos directores e programadores do IndieLisboa. Mas entretanto podem espreitar todas as viagens anteriores aqui;
Pranchas e Balões é o podcast semanal sobre BD da Antena 1. Esta semana regressou o Luís Bernardino para falarmos de 6 livros, um deles envolvendo aquele que no Brasil se chama de Coringa! Podem ouvir aqui;
Mortinhos por Sair de Casa é o roteiro diário de coisas para fazer que passa às 17h40 na rádio e depois anda por aqui;
E hoje n’A Hora da Pop, o podcast da Antena 1 dedicado à cultura popular, a Isilda Sanches fala da nova temporada de “Black Mirror” e a Carina Jorge da terceira de “The White Lotus”, enquanto o João Bacalhau recupera a obra de Michael Crichton. Podem ouvir aqui;
E se tiverem Letterboxd, vou partilhando umas ideias por aqui.
E por hoje é tudo. Aproveitem o feriado e o fim de semana. 25 de Abril sempre! Obrigado e bem hajam.





