As vitórias dos vencedores
Uma polémica recente leva a considerações sobre o mediatismo. Depois há cinema italiano, uma família complicada e outras coisas.
No primeiro destes folhetins semanais, deixei a recomendação de um podcast chamado “Quinteto Literário”. Quando me sentei a escrever, tinha acabado de ver o último episódio: achei interessante, fora um ou outro momento dispensável, como na altura referi. Lembro-me que, assim que essas coisas infelizes começaram a surgir no vídeo, pensei logo que, se a visada da crítica apanhasse aquele bitaite, poderia aproveitá-lo para um cancelamento jeitoso, daqueles que, durante uns tempos, foram o pão nosso de cada dia.
Vou explicar porque, como já me deu a entender por várias vezes o mundo da internet, aquilo que é importante para uns pode ter passado completamente ao lado para outros. Os grandes fenómenos de popularidade das redes podem ser desconhecidos por pessoas que não sejam afectadas pelas mesmas condições algorítmicas, e assim sucessivamente.
Nesse episódio do Quinteto Literário, João Pedro George dedicou vários minutos à literatura de Madalena Sá Fernandes. Apesar de ser uma escritora tão falada dos últimos tempos, confesso que só fiquei a conhecê-la ao ver esta conversa. Continuo a dizer que vale a pena ver o que por lá se passa, até porque os três intervenientes conversam com entusiasmo, discordam e contradizem-se com piada. E George atirou-se de cabeça a um tipo de análise em que se tornou perito, no passar dos anos: o descascar de um acontecimento mediático-editorial, pondo a nu as fragilidades da escrita da autora e questionando a sua ascensão, motivada pelos contactos certos e uma aclamação quase unânime, desde a elite literária até aos nomes do jet-set.
Até aqui tudo bem: é uma crítica certeira, que se aplica a Sá Fernandes e a muitos outros autores da nossa praça.
O problema… é o que vem depois.
Aquilo que podia começar como mais um ponto a reter dessa análise (o impacto das redes sociais e de como tudo o que é exterior ao livro serve para o vender massivamente), acaba por cair no comentário fácil e triste: George comenta os posts da autora, questionando que a sua imagem, o seu corpo, não combina com o tipo de autoficção que propôs.
É engraçado que fiquei com a ideia, enquanto via as imagens pela primeira vez, de que a dada altura o próprio George percebeu que estava a cometer um erro. Calou-se, ficou por aí, e a conversa continuou por outros caminhos. Entretanto o mal já estava feito: diminuíra o seu discurso ao nível da tasca.
Semanas depois, Madalena Sá Fernandes reage. Chama o escritor, sociólogo e crítico de misógino e machista. "Nunca rebateria uma crítica literária. Mas aqui inaugura-se a crítica às fotografias de Instagram, à vida pessoal, e a extraordinária crítica ao sorriso de quem sofreu”, escreveu no seu instagram. Percebe-se porque nunca rebateria uma crítica literária - até porque, nesse ponto, as palavras de George não deixam margem para dúvidas. Mas de resto, claro, tem razão.
Estava instalado o caos - pelo menos para quem apanhou a troca de galhardetes, seguida dos comunicados do próprio George e da Livraria Martins, que criou o podcast Quinteto Literário.
Mas parece-me que aquilo que começou com uma tirada infeliz e totalmente discutível num podcast escalou para uma luta desigual.
Vejamos: George fez aquele comentário num podcast que, até ontem, não tinha mais do que duas mil visualizações no YouTube. Madalena Sá Fernandes tem mais de duzentos mil seguidores no instagram.
A reacção da autora às palavras do crítico acabou, no fundo, por mostrar que tudo o que ele disse, até ao momento em que julgou as fotos dela… faz sentido.
Ela podia simplesmente ter ignorado aquilo e continuado a sua vida. Por que raio é que uma opinião negativa iria afectar o seu percurso, as centenas ou milhares de exemplares que já vendeu dos seus romances, as amizades importantes que foi adquirindo na vida, a estima que detém junto dos seus leitores?
Na verdade, a controvérsia foi mais um momento de promoção. Todas as razões são boas para criar posts, ter muitos likes e gerar viralidades.
Assim que Sá Fernandes publicou a sua (justa) indignação, vieram a correr todos os seus amigos. Olhar a caixa de comentários do post é como brincar ao quem é quem dos famosos, pertencentes a várias áreas da vida artística e social. Muitas considerações foram feitas, porque toda a gente tem a sua opinião sobre este assunto, e toda a gente se sentiu revolucionária e com ganas de mudar o mundo, acabar com as injustiças, eliminar de vez o machismo e a misoginia.
Quer dizer… pelo menos enquanto comentavam.
George criticava Sá Fernandes pelo séquito de ligações que a levaram a escrever livros. Todas essas cumplicidades foram reveladas num único post. Aquilo que começou por um disparate dito por um homem, transformou-se em algo semelhante à interacção entre três rufias com jeito para a pancada contra um lingrinhas que só quer chegar inteiro a casa.
Das várias contradições que nos trouxe a era da internet é que, ao contrário do que os seus criadores achavam, ela não foi totalmente utilizada para diversificar os discursos, dar nova voz a outras vozes. Na verdade, o mediatismo contemporâneo deu mais força aos fenómenos do passado. Os “populares da escola” continuam a reinar. Só singra no mercado quem pisa todas as outras vozes para sugar todo o destaque nos meios de comunicação.
Claro que um sucesso de vendas não significa que uma obra não tenha qualidade. Mas a unanimidade perante certos fenómenos, e o poder avassalador que acabam por obter, diz muito sobre o que aconteceu à cultura, cada vez mais subserviente destes acontecimentos motivados por livros, que não querem que lhes fiquemos indiferentes.
Mais valia. Há muita coisa para ler, e de facto (como se salienta, e bem, no dito podcast), quantos excelentes escritores não são virais? Quantos autores desistem de escrever porque a sua literatura não joga as regras do jogo mediático? Quantas pessoas não têm uma carinha laroca, um jeito especial para lidar com o algoritmo, uma apetência para os copos e a vida social?
É a eterna luta entre a arte e o comércio, entre o social e o artístico. A internet amplificou mais a força destas contradições, porque vivemos, cada vez mais, numa ditadura dos vencedores. Passou do empreendedorismo, da auto ajuda e da superação para minar todos os sectores da nossa vida - incluindo a cultura e os livros, que nunca poderemos avaliar com esses conceitos de vitória, do que é preciso para não ser um looser.
A própria Sá Fernandes, na sua defesa, diz: “Pensar que disse ao meu amigo para lhe fazer companhia, por ter pena de o ver sozinho na feira do livro“. É uma referência ao episódio que George conta no podcast, da primeira vez que se cruzou com Sá Fernandes (sem que ela, admite o crítico, se lembrasse disso, tendo em conta a nula dimensão mediática que ele tem). É um insulto peculiar: “devias era ter ficado sozinho, só os bons é que triunfam e têm milhares de leitores”. Não deixa de parecer mais uma das formas perversas que o capitalismo inventou para se entranhar cada vez mais nas nossas vidas: os escritores competem, quem tem mais amigos é que vence, o que importa é estar no sítio certo à hora certa. Se questionares, não mereces existir. Só estás aqui para dizer bem. Quem me critica é um alvo a abater.
Estas questões, para mim, são mais interessantes do que a polémica - só tenho pena é que George tenha entrado por aquela via, fazendo com que todas as atenções se virem para aí (embora a razão da queixa da autora, volto a referir para que não haja dúvidas, tenha sido totalmente legítima). Mas é tudo isso, o que vem antes dessas declarações, que nos devia fazer pensar.
Agora é guardar as tochas e forquilhas até à próxima controvérsia. Não precisam de esperar muito, deve sair já amanhã.
O que se recomenda…
… de filmes
A Festa do Cinema Italiano está quase a chegar e, este ano, há uma homenagem a Antonio Pietrangeli, cineasta cuja obra desconheço totalmente… excepto um filme, provavelmente o mais célebre da sua carreira. Vou aproveitar a retrospectiva para descobrir mais tomos desta filmografia, mas aproveito para recomendar “Io La Conoscevo Bene”, que por acaso vi na Cinemateca, mas em 2021. É Stefania Sandrelli quem protagoniza, naquilo que me recordo de ser um filme episódico sobre uma mulher entre vários homens, enquanto procura-se a si mesma, à sua identidade, num mundo injusto e selvagem. No fim, ficamos com um sabor amargo na boca. Nada bate o cinema italiano na capacidade de nos fazer rir e, quase em simultâneo, atirar-nos ao chão sem piedade. Duas oportunidades para descobrir o filme na Cinemateca: 7 de Abril às 21h30 e 22 de Abril às 19h30.
… de livros
Naquele episódio do “Quinteto Literário” falou-se muito de autoficção. Depois de ver o episódio, continuei sem qualquer vontade de pegar no Knausgard ou noutros autores que por ali foram mencionados. Mas lembrei-me que, recentemente, fui "abalroado" por um romance que se pode enquadrar nesse chapéu da autoficção: "Herança" é o relato de Vigdis Hjorth sobre a sua família muito complicada. Peguei no livro por curiosidade, e de repente já tinham passado 90 páginas. A construção da narrativa e os parágrafos curtos levam-nos a essa leitura "viciante", dando-nos a descobrir permanentemente novos detalhes do passado algo perturbante da autora. Mas o conteúdo é muito bom, se bem que real e provavelmente eticamente questionável (mas os problemas que são relatados não são ainda mais polémicos?). Senti, por um lado, que estava a ler uma confissão que não devia ser pública, mas por outro (e ao contrário dos exemplos escrutinados no podcast), nunca pensei que não queria estar a ler aquilo. É o retrato de como a família pode não ser o lugar mais seguro do mundo, e de como uma pessoa lida com as contradições entre as mágoas provocadas por essa relação com os pais, e o facto de se estar a eles ligado para sempre, nem que seja apenas pelo sangue.
… de discos
Gosto muito de bandas sonoras, e daí ter criado um programa a elas dedicado. A minha preferida de todas, talvez a que eu ouço mais vezes, é a do filme “O Clã dos Sicilianos”. É o perfeito exemplo de como a música pode sublinhar, e até melhorar, as intenções do cinema. Não imagino as imagens sem as notas de Ennio Morricone e a peculiar junção de instrumentos. Não consigo pensar no belo final do filme sem ouvir, também, uma das variações do tema principal a tocar ao fundo. Só pelos actores (Jean Gabin, Lino Ventura e Alain Delon) já valeria a pena ver este thriller do tarefeiro Henri Verneuil, mas Morricone dá-lhe qualquer coisa de especial. Não sou grande comprador de vinil porque, digamos, é caro. Mas o disco desta banda sonora tinha de fazer parte da minha colecção.
… de vídeos
Para quem se interessar pelo mundo complexo dos restauros de filmes, este vídeo leva-nos a descobrir as várias versões de “Se7en”, desde as primeiras cópias em película à nova versão 4K (utilizada na reposição nos cinemas a propósito do 30.º aniversário, e que foi um sucesso de bilheteira em Portugal - mais de 27 mil espectadores, de acordo com o ICA), para mostrar como a ideia que temos do aspecto de um filme pode nunca corresponder à realidade - ou que a realidade pode ser adulterada, ao longo dos anos, por cada novo restauro, acrescento, etc.
… de outras ligações
Não é a primeira vez (nem creio que seja a última) que Richard Brody se debruça sobre o cinema português. A última investida do crítico partiu da obra que Manoel de Oliveira realizou depois dos 80 - pouco mais de uma vintena de longas-metragens que, na sua opinião, "rejuvenesceram a arte dos filmes ao ligarem experiência pessoal com o arco da História". Saiu há uns dias na New Yorker. Anda por aqui.
Antes de irem embora…
Outras estações de serviço virtuais:
Imperdoável é o podcast onde vou ver os filmes que já tinha visto. Esta semana convidei a Joana Moreira para falar de “Inland Empire”. Será que temos alguma coisa minimamente coerente para dizer sobre este filme de David Lynch? É tirar a teima ouvindo o episódio, disponível nas plataformas de podcasts;
De Olhos Bem Fechados é o programa de bandas sonoras da Antena 1. Passa aos domingos às 23h e depois está na RTP Play. Daqui a dois dias há novo episódio com mais uma dúzia de temas. Antes disso podem espreitar os mais de 70 episódios anteriores aqui;
Pranchas e Balões é o podcast semanal sobre BD da Antena 1. Esta semana voltou o companheiro quinzenal Luís Bernardino e falámos de sete livros, onde se incluem “Bobigny 1972”, “Volta Snoopy” e “Massa Crítica”. Podem ouvir aqui;
Mortinhos por Sair de Casa é o roteiro diário de coisas para fazer que passa às 17h40 na rádio e depois anda por aqui;
E hoje n’A Hora da Pop, o podcast da Antena 1 dedicado à cultura popular, podem ouvir a Isilda Sanches a falar das séries “Adolescence” (a panca do momento que eu ainda não vi!) e “Herrhausen: O Banqueiro e a Bomba” (esta vi e é boa), e no meio disso a Kenia Nunes fala da obra de Sally Rooney (da qual só li “Pessoas Normais” e não fiquei entusiasmado). Podem ouvir aqui;
E se tiverem Letterboxd, ando a importunar as pessoas por aqui.
E despeço-me com amizade, e até uma próxima oportunidade. Que é como quem diz, até daqui a uma semana. Entretanto o tempo começa a melhorar e já dá para passear com alegria - eu sou como um cão, preciso de sol e sair à rua. Ainda há Monstra este fim de semana por Lisboa - que tal aproveitarem? Obrigado e bem hajam.






A crítica do João Pedro George e o teu comentário foram certeiros, especialmente na relação criada neste estado do capitalismo, em que a pessoa não vende apenas o seu produto, mas vende-se a si mesma como o produto. No entanto, acho que toda esta controvérsia teria sido facilmente evitada se o João Pedro George não tivesse feito aqueles comentários que são francamente desnecessários e vão além da crítica que ele fez da obra, que desconheço. Parece já estar tão embrenhada em nós essa ideia anterior que o próprio João Pedro decidiu integrá-la na sua crítica. A desproporção de forças é real, mas noto que as pessoas sentem-se demasiado à vontade para fazerem este tipo de comentários nos podcasts, que bastava pararem cinco segundos para pensar e poderiam evitar situações destas e os comentários mereciam resposta, no meu ponto de vista.
Por mais do que uma vez saliento no texto que a queixa da escritora é legítima. Obviamente a minha opinião não conta para nada! Não quis colocar em causa isso, mas sim as repercussões disso. Ou seja: ela defendeu-se e os amigos famosos dela vieram logo para atirar achas à fogueira. Longe de mim dizer que não o podem fazer! Mas a dimensão a que isto chegou, por causa dessa reacção, coincide com a crítica que o próprio JPG faz destes processos mediáticos.