À procura do x
O que os filmes nos levam a pensar a partir de duas experiências recentes. Depois há Morricone, uma diva e outras propostas.
Às vezes um filme não precisa de ser bom para nos deixar qualquer coisa.
Mas não fiquem com ideias, esse não é o caso de “Thelma”. É óptimo. E é dele a imagem que abre este folhetim.
Foi a escolha para a sessão de abertura esgotada da quarta edição do Outsiders, o ciclo de cinema independente americano com curadoria de Carlos Nogueira, que apaixonadamente nos guia por obras e realizadores que passam debaixo dos radares de uma cultura cinematográfica que já nos bombardeia regularmente - mas há muita coisa que fica por descobrir.
Este filme tem feito o circuito festivaleiro com alguma pujança. Chamou-me a atenção, nem que fosse pelo facto de ter a nonagenária June Squibb a protagonizar e a contracenar com o já desaparecido Richard Roundtree. Por isso, era já um título presente na minha watchlist, e que ambicionava ver, um dia, quando calhasse (como dezenas de filmes que não estreiam), graças à internet ou a alguma cópia física que surgisse a um preço mais em conta. Mas felizmente tive a oportunidade de o ver no grande ecrã da Sala Manoel de Oliveira, no Cinema São Jorge, com espectadores que reagiram de forma entusiástica ao seu humor e humanismo. É tão bom quando isto acontece: apanhar uma sala em sintonia com as imagens, que torna a experiência irrepetível, inesquecível, divertidíssima.
“Thelma” inspira-se num acontecimento real: a avó do realizador sofreu uma tentativa de burla por telefone que, felizmente, não foi “concretizada” - tudo foi interrompido a tempo, antes da senhora entregar dinheiro aos malfeitores. Isto levou a pensar num “e se?” que se concretizou nesta comédia que é uma paródia aos filmes de acção, na banda sonora, na montagem, na escolha dos planos que cruzam a tensão desse género com as deambulações de uma senhora com uma certa idade, que se vai cruzando na rua com pessoas que acha que conhece de algum sítio, ou que aprende a mexer nos computadores e a perceber que o mais importante é encontrar o X que se esconde em cada pop-up.
June Squibb parte à procura dos burlões numa motorizada para idosos, na companhia do seu proprietário (Roundtree). No caminho faz-se uma reflexão sobre a idade, a passagem do tempo mas, também (e talvez seja o mais surpreendente, e tocante, do filme), o retrato de uma geração apaparicada pelos pais, incapacitada por eles de voar, de errar, de crescer. É para isso que serve a personagem do neto e a relação tão amorosa entre ele e a avó.
Pode não ser o melhor filme do mundo, mas o que é que isso interessa? Passei uma óptima noite na companhia de “Thelma”. A experiência em sala será daquelas que ficará na memória pelas melhores razões (mas tenho algumas que recordarei por terem sido um pesadelo, como esta), e o filme deu-me uma experiência de puro contentamento.
Mas também me emocionei - e era sobre isto, na verdade, que queria falar hoje.
(como podem constatar, nunca poderia ser jornalista. Não vou directo ao assunto, adoro divagar e fazer perder tempo a quem me lê)
É que também chorei a ver “Thelma”. Não porque o filme tenha elementos sentimentais ou que puxem a lágrima como os “Patch Adams” da vida, mas pura e simplesmente por causa do que vivi.
Ao ver o filme, percebi que em 2025 passam 15 anos da morte da minha avó paterna. Foi a única que tive mais tempo na minha vida. A minha única avó.
(um parêntesis: o meu avô paterno morreu quando eu tinha 2 anos, não sei se conheci o meu avô materno, e a minha avó materna morreu quando eu tinha 6 anos. Lembro-me bem do que o alzheimer lhe fez. É recorrente, com os meus pais, recordarmos como a avó, sentada na cadeira de rodas enquanto eu via o batatoon ao chegar da escola, começava a falar com o batatinha de uma forma desagradável - já não comunicava por palavras, mas dava para perceber que ficava muito chateada quando o palhaço surgia no ecrã. Também não gostava do Marcelo, que à época era comentador na TVI)
Daí que talvez não fosse propositado, mas ver a June Squibb tão bem, com os seus 95 anos, e a ser uma avó tão fofinha para o seu neto, me fez lembrar daquilo que me lembro da minha avó paterna, com quem partilhei tantos bons momentos. E também não consigo não me emocionar um bocadinho enquanto escrevo isto.
Então, “Thelma” fez-me pensar muito na minha avó. Que bom foi, ainda durante 15 anos, tê-la na minha vida. E o que me deixou! Mas as saudades não se apagam. E puxa, que estranho pensar como já passaram tantos anos como os que eu tinha quando ela morreu. Ainda não me habituei a isso, a esta constatação que, agora, a distância temporal tem outro valor, outra dimensão.
Aquela comédia algo tresloucada, mas muito eficaz e divertida, e com um papelão da senhora Squibb (mas todo o elenco está igualmente óptimo), tem nas suas intenções, em parte, falar da terceira idade e da forma como tratamos os mais velhos. E há um momento doloroso de ver, quando Squibb e Roundtree visitam uma amiga que vive sozinha e… não contarei mais, vejam o filme. E claro que, vendo isto, e sabendo que os meus pais estão a meio dos 60, angustia-me pensar se terei capacidade de os ajudar, caso alguma coisa lhes aconteça. Espero que sim, que na altura saiba o que fazer (e que tenha meios para tal).
Mas o neto da protagonista também me fez pensar em mim. O que fiz da minha vida? Será que sou aquilo, também? Ou algo diferente? É que os últimos seis meses foram um turbilhão de alterações significativas à minha vida, passei por altos e muitíssimo baixos, e lá está, o aproximar dos 30… levaram-me (e levam-me) a muitos questionamentos quase diários.
Bom, mais vale viver um dia de cada vez e tentar fazer o melhor possível por mim e pelos outros. O que interessa é que, pelo menos, não tenho de dar aulas de informática aos meus pais. Eles sabem bem onde está o x para tirar aquelas porcarias publicitárias.
Enfim, os filmes podem ser melhores ou piores, mas cada vez mais me interessa o que eles nos deixam, nos pontos em que nos tocam e como, por vezes, nos levam por outros caminhos que nada têm a ver com o que acabámos de ver.
E é aqui que entra a primeira frase deste texto, para falar de outro filme que apanhei no Outsiders - noite de ontem, 19h, sala 3 do São Jorge. “Something Anything”, de 2014, um dos filmes do realizador convidado desta edição, Paul Harrill.
O Carlos Nogueira vendeu-me bem o filme quando conversámos, no beberete depois da abertura. Disse-me que era o seu favorito entre os 12 desta edição. Tendo encontrado um espaço na agenda que me permitia chegar a tempo da sessão, lá fui descobrir esta jornada de autodescoberta de uma mulher.
Confesso que não fiquei grande fã do filme - e mesmo assim, voltei a gostar de ouvir o programador a tecer-lhe tantos elogios. Não é por causa do seu ritmo, mas porque me pareceu que aquela personagem ficou aquém do que poderia ter sido. O andar da narrativa passa por algumas ideias superficiais, e a própria actriz não ajuda muito à complexidade psicológica que um retrato destes poderia ter.
Mas…
“Something Anything” deu-me outra coisa: muito tempo a pensar sobre como as decisões que tomamos, e o nosso estado de espírito, são muito influenciados pelos acidentes de percurso. Logo a abrir o filme, Peggy casa-se, engravida e tem um aborto espontâneo. E o que se segue é: como viver depois disto? Ela separa-se do marido, vai trabalhar para uma biblioteca, está indecisa, reflecte, reencontra um amigo, etc.
Ou seja: foi preciso a mulher perder a criança para perceber aquilo que nós, logo no início, entendemos: aquele marido é um idiota, o grupo de amigos de ambos é composto por gente insensível e estúpida, e que ela não é feliz como agente imobiliária.
E se a criança tivesse nascido? Será que a personagem iria aceitar o marido, aquele grupo de amigos e a vidinha que tinha? Será que ficaria para sempre naquele marasmo, conformada com o que tem? Será que, no fim de contas, passar por algo horrível como perder um filho foi a “melhor” coisa que lhe podia ter acontecido?
Estas interrogações extra-filme foram bem mais interessantes, para mim, do que o próprio filme. Já vos aconteceu passarem por uma experiência que vos fizesse mudar radicalmente de caminho, e que se não tivesse ocorrido, nada teria mudado?
Fica a questão, retórica, para pensarem mais tarde. Não quero que fiquem tristes, nem que se ponham a questionar ad eternum todas as vossas decisões. Mas é engraçado como, às vezes, não conseguimos ver o que está tão obviamente à nossa frente. É preciso que a vida nos dê um pontapé imaginário na cabeça para nos fazer acordar. Não quero com isto dizer que esse é o propósito de “Something Anything”, mas é curioso como o filme me fez mais pensar nisto do que na própria resolução (desinteressante e desinteressada) que se propõe para as deambulações de Peggy.
Não vou conseguir, infelizmente, apanhar mais nada do Outsiders excepto a sessão de encerramento, marcada para domingo (há trabalho na noite de hoje porque vou estar a fazer emissão na rádio, amanhã há o Paradjanov na Cinemateca - outro imperdoável! - e outras coisas que me vão ocupar o fim de semana, desde jantar com os meus pais a roupa para lavar). Mas esta é uma belíssima iniciativa que, espero eu, perdurará entre a overdose de festivais e festivalinhos da capital. Se puderem, espreitem a programação e deixem-se levar. Pode ser que encontrem uma nova entrada para a lista dos melhores filmes da vossa vida (nunca se sabe!).
O que se recomenda…
… de filmes
“Brincar com o Fogo” podia ter entrado no devaneio anterior, mas o texto já ia longo e a reflexão deixada por este filme não é tão pessoal, ou particular, como a que expus nas linhas anteriores: é Vincent Lindon a ter de lidar com a simpatia do seu filho mais velho pela extrema direita, representada por um grupo de skinheads. Talvez pareça uma proposta narrativa fora de moda, porque entretanto o fascismo tornou-se mainstream e com ramificações mais perigosas, porque normalizadas e mais difíceis de combater. Mas é impossível o dilema deste pai não nos emocionar, e ficarmos a pensar o que faríamos na mesma situação. Um bom filme, e Lindon está extraordinário. Ainda o apanham nos cinemas de algumas cidades.
… de livros
Saúdo a edição portuguesa da autobiografia de Werner Herzog, que já comprei mas ainda não li (como diz o outro, story of my life). Mas aproveito para recomendar outra obra do realizador editada também pela Zigurate: “O Crepúsculo do Mundo” é um livro curto, mas que me deixou uma marca imensa. É Herzog a contar uma história peculiar de um soldado japonês para quem a II guerra mundial nunca acabou. Um relato espantoso que, em breve, vai transformar-se num filme do próprio cineasta. O que me faz agora pensar (claro, porque a minha cabeça é parva e gosta sempre de se desviar do assunto quando a coisa está a ficar demasiado séria) que a sugestão de vídeo da semana bem podia ser esta reflexão sobre o nihilismo dos pinguins…
… de discos
Passo muito tempo a ouvir bandas sonoras, não só por causa do meu programa da rádio (De Olhos Bem Fechados), mas porque sempre tive essa obsessão - o programa é, aliás, fruto dela, e não o contrário. E vou descobrindo, aqui e ali, umas bandas sonoras incríveis de filmes desconhecidos por quase toda a gente, mas também compilações gostosas que nos levam por caminhos imprevisíveis (e a arte do alinhamento de uma compilação será sempre subestimada). Um amigo que é entusiasta de BD e que também trabalha na RTP (mas noutra área diferente da minha) falou-me da editora Cam Sugar, e da passagem por Portugal dos seus donos numa Festa do Cinema Italiano. A primeira coisa em que pensei foi: por que raio isto passou-me ao lado? E a segunda foi: tenho de descobrir o seu catálogo. E tem mil maravilhas, como a banda sonora completa do “La Planète Sauvage” e discos que têm um sortido de pérolas do universo da música italiana para cinema. E, claro, Morricone! Na Tubitek de Lisboa encontrei recentemente esta pechincha: “Morricone Segreto” é uma viagem por um outro lado do extraordinário compositor, com temas imprevisíveis e alucinantes da sua obra, com alguns inéditos em disco. É uma delícia, e por lá está representada aquela que deve ser a minha banda sonora favorita.
… de vídeos
Graças a uma amiga, descobri esta preciosidade: uma entrevista da diva Gloria Swanson a António Lopes Ribeiro em 1969. A actriz que é bem mais do que a Norma Desmond de “Sunset Boulevard” passava umas temporadas na Praia das Maçãs, e é muito curioso vê-la aqui em diálogo com Lopes Ribeiro - e, aos quinze minutos, nota-se uma grande tensão no ar com um interlocutor que está fora do plano (aaah, como eu gosto de discussões acesas). Está no YouTube mas também podem encontrar no site da RTP Arquivos.
… de outras ligações
Voltando a Jean-Baptiste Thoret, de quem falei há duas semanas por aqui, vale a pena ler esta bela entrevista do André Filipe Antunes ao crítico e entusiasta da obra de John Carpenter. A Tribuna do Cinema é dos projectos mais interessantes a surgir nos últimos tempos nesta área de escrita cinéfila, e esta troca de ideias entre o André e o senhor Thoret é preciosa. E deixo uma citação que é mais uma prova de que não devia ter faltado à sessão de “Christine”, como me ralhou a mesma amiga que me deu a descobrir a entrevista da Gloria Swanson, e que veio de propósito a Lisboa para acompanhar a semana de Histórias do Cinema na Cinemateca. Porque talvez, tal como ela e Thoret, também eu poderia ter redescoberto um outro filme diferente do das minhas memórias: há 25 anos era um filme razoável, mas não era um filme importante para mim, não ao nível de Assault on Precinct 13, Halloween ou The Fog. Aos poucos, fui percebendo que era um “Cavalo de Troia”, sobre a relação de Carpenter com os anos 50. Muito na década de 80 era ensombrado pela questão da geração de 50, que era vista como uma geração de ouro — o slogan de Ronald Reagan era justamente “Make America Great Again”. Diz muito sobre os realizadores daquela época se lhes perguntarmos qual é a geração de ouro para eles: uns dizem a década de 50, os outros a de 60, que são dois tipos de América diferentes.
Antes de irem embora…
Outras paragens para visitar:
Imperdoável é o podcast onde vou ver os filmes que já tinha visto. Esta semana fiz algo inédito: um episódio a solo em que discorri sobre “Forte Apache” depois de o ver na Cinemateca, num percurso que acabou com um prego no Galeto. Este e outros episódios estão nas plataformas de podcasts;
De Olhos Bem Fechados é o programa de bandas sonoras da Antena 1. Passa aos domingos às 23h e depois está na RTP Play. Todas as semanas se propõe um sortido de estilos musicais, e a do próximo episódio começa precisamente com “Thelma”. Todos os episódios estão aqui;
Pranchas e Balões é o podcast semanal sobre BD da Antena 1. Esta semana veio o meu companheiro quinzenal, Luís Bernardino, e falámos de seis livros, um deles a biografia de Hitler por Shigeru Mizuki (não será um livro de cabeceira dos skinheads do filme com Lindon). Anda por aqui;
Mortinhos por Sair de Casa é o roteiro diário de coisas para fazer que passa às 17h40 na rádio e depois anda por aqui;
E estreou hoje A Hora da Pop, novo podcast da Antena 1 que vai andar pelos caminhos da cultura popular com vários comentadores. Neste primeiro episódio o Daniel Mota ajudou-me a falar dos 50 anos do SNL, do primeiro ano do regresso de Jon Stewart ao Daily Show e de “Entradas e Saídas”, a autobiografia de Michael Richards (o Kramer do “Seinfeld”) que foi editada cá pela Casa das Letras. Podem encontrar tudo aqui;
E se tiverem Letterboxd, estou instalado por aqui.
E é tudo por hoje. Como vai a vossa vida? Contem-me tudo, ou o que quiserem. Deste lado faltou-me dizer que cada vez gosto mais do Substack, e que a cada semana percebo como foi óptima a ideia de vir para aqui dizer umas coisas. E que está a tornar-se recorrente o tema da memória - e o próximo folhetim será sobre isso, por causa de um pequeno filme animado. Enfim, para a semana falamos. Obrigado e bem hajam.







Gostei muito deste teu post e comovi-me muito com o que escreveste sobre a tua avó. Infelizmente eu não tive o privilégio de crescer com nenhuma das minhas avós. Tenho algumas memórias com o meu avô paterno, ainda vivo, mas nunca foi uma relação assim tão próxima, pois vivemos a maior parte do tempo longe um do outro. Sobre a passagem do tempo, para mim ainda é um conceito muito abstracto, uma vez que os meus pais estão ainda na casa dos 50 (o meu pai fez 57 este ano e continua a dizer que é como se tivesse 20 🤣) Mas de vez em quando ainda penso o que será daqui a uns anos, até porque eles vivem no Algarve…
Sobre as sugestões, obrigada! Agora que estou na aventura da maternidade tem sido difícil acompanhar a vida cultural da cidade e ter tempo para descobrir o que de bom há por aí para se ver, também em casa.