A mulher com 20 metros
Elogio à maior actriz do mundo.
25 de Fevereiro de 2018 foi o dia em que vi 20 metros de Claudia Cardinale.
Já contei esta história noutros lados: o Centro Cultural de Belém manteve, durante uns anos, uma rubrica mensal de cinema no grande auditório. Num ecrã com tamanha dimensão, puderam ser vistos (e revistos) alguns daqueles filmes épicos que precisam de um ecrã à escala apropriada para serem devidamente apreciados. Foi lá que também revi “O Leopardo”, com a deslumbrante actriz.
Mas a impressão deixada pelo filme de Sergio Leone, nessa última revisita, foi muito especial. Pois. Foi nesse dia, há sete anos e (quase) meio, que vi “Once Upon a Time In The West” pela terceira - e, para já, última vez.
[Nunca me abandonou: vou revendo excertos de vez em quando, e a banda sonora toca constantemente nos aparelhos de que disponho (ou simplesmente na minha cabeça). Está mais vivo do que nunca, mais presente em mim do que alguns filmes que vi para aí na semana passada.]
Os grandes planos e os close-ups arrebatadores, a dimensão épica das imagens e dos sons, a belíssima banda sonora de Morricone (arrepio-me sempre que ouço isto)… tecer elogios a “Once Upon a Time In The West” é uma tarefa inútil, é uma beleza de cinema. Tudo no sítio numa orquestração fascinante de ideias: dos mitos e da queda deles, do fim do velho oeste e a chegada do progresso, a vingança pelo que ficou no passado e, também, a esperança no que há de vir…
E claro: num ecrã de 20 metros, tudo bate mais. E a senhora Cardinale, que tem uma das grandes personagens do cinema (na minha mui modesta e nada aconselhável opinião).
Assim, é claro que não fiquei feliz ao saber da morte desta actriz extraordinária, de uma beleza única, um furacão irrepetível no mundo das imagens em movimento.
Ainda há umas semanas vi dois filmes com ela pela primeira vez: “Un Maledetto Imbroglio”, em que com 21 anos já dava um “show de bola” impecável, numa personagem que tem muito que se lhe diga - não vou contar mais.
Na mesma altura descobri “Il Giorno Della Civetta”. É um belíssimo policial, à volta da máfia e da intensidade com que os seus tentáculos conseguem agarrar toda uma comunidade. Tem também Franco Nero e Lee J. Cobb, além de Cardinale.
Por vezes estava reduzida a papéis sem grande interesse, ou que apenas aproveitavam os lindos olhos e as formas - coisa infelizmente normal durante muitas décadas, e que eu creio não ter sido ainda totalmente ultrapassada. Apesar disso, felizmente o cinema soube aproveitá-la, dando-lhe a oportunidade de dar vida a personagens marcantes como a da mulher que reconstrói a sua vida naquele lugarejo do oeste, entre um homem da harmónica e um vilão com olhos de anjo.
Vi aqueles dois filmes que mencionei (de 59 e 68, respectivamente) em edições bluray da Radiance, uma editora muito jovem que tem lançado muito cinema italiano no mercado britânico. Cada edição vem apetrechada de suculentos extras. Na de “Il Giorno Della Civetta”, há uma entrevista a Cardinale gravada em 2017 para a televisão belga.
(É um dispositivo curioso. Faz lembrar o “Carpool Karaoke”, mas a diferença é que a pessoa convidada vai no banco de trás.)
O entrevistador/motorista assume logo a crush que tinha por Cardinale (quem não?). E o que se segue é uma interessante troca de ideias, em que se percebe a aturada pesquisa, ou genuínos conhecimentos, daquele tipo sobre a mulher que está a levar no automóvel.
Às tantas ele pergunta-lhe sobre “Circus World”, um filme em que contracenou com John Wayne e Rita Hayworth. E há uma história de um encontro com a actriz de Gilda que a fez chorar, como conta:
Ela estava na sua roulotte. Era muito bonita.
Olhou para mim, e começou a chorar.
Eu perguntei: “o que se passa?”.
E ela respondeu: “Eu também já fui bonita”.
Eu disse: “Mas o que está a dizer? A Rita é muito bonita”.
Ela estava nostálgica.
Não me parece que Cardinale, ao longo da sua vida, se tenha deixado abater por essa nostalgia de uma juventude perdida. Foi-se reinventando, trabalhou com tantos cineastas diferentes (e com Manoel de Oliveira teve um dos seus melhores desempenhos). Seria bom que todos nós pudéssemos envelhecer assim, sem medos. Pensando que o aparecimento das rugas é o fim… de coisa nenhuma. E foi bela até ao fim.
Nos últimos dias, mergulhei a fundo na filmografia de Claudia Cardinale por causa das bandas sonoras. Apesar de não fazer recorrentemente obituários no meu De Olhos Bem Fechados, achei que fazia sentido homenagear a actriz através da sua voz, e dos filmes que fez. E descobri que também emprestou as cordas vocais a algumas cantigas, quem diria.
Porque quando uma figura destas nos deixa (tal como Robert Redford, uns dias antes), parece que (vem aí metáfora), é mais um dedo que se solta da mão de uma pessoa que é o cinema. Essa pessoa está prestes a cair num abismo, e nós estamos a agarrar a sua mão já com muita dificuldade, porque estamos desequilibrados no precipício. O passado esvai-se e a memória de outros tempos, em que o cinema era outra(s) coisa(s), fica cada vez mais relegada para as estantes dos arquivos e das bibliotecas.
Apesar disso, não quero acreditar que a ausência destes ícones faça com que essa versão humana do cinema vá por ali abaixo. Saibamos nós tirá-la dessa situação perigosa e estimá-la. Com a memória de tantas actrizes, actores, realizadores, argumentistas… todos os que deram um pouco de si para criarem filmes que continuam a mexer connosco.
[É pena que o CCB tenha desistido dessa ideia do “Belém Cinema”. Recordo lá ter testemunhado algumas das melhores sessões de cinema (noutra, o auditório cheio com gente a bater palmas ao ritmo das canções da “Mary Poppins”), e aqueles colossos, feitos em cinemascope e com um luxo e pomposidade dignos de encher o olho, merecem mesmo este tratamento especial - poderia dizer que qualquer filme merece, mas não é verdade. Nunca na vida gostaria de ver um objecto mais modesto e menos espectacular num ecrã de tamanhas dimensões.]
Antes de irem embora…
Outras saídas nesta rotunda virtual:
Imperdoável é o podcast onde vou ver os filmes que já tinha visto. Já está de volta, e esta semana falei sozinho sobre “Sedotta e Abbandonata”, mais um filmaço italiano. Podem ouvir tudo nas plataformas de podcasts;
De Olhos Bem Fechados é o programa de bandas sonoras da Antena 1. Passa aos domingos às 23h e depois está na RTP Play. Dependendo do dia e hora em que estiverem a ler isto, hoje há/ontem houve/há uns dias aconteceu (riscar o que não interessa) um episódio especial dedicado à estrela maior a quem este post é dedicado. Todas as emissões estão aqui;
Pranchas e Balões é o podcast semanal sobre BD da Antena 1. Falei há uns dias com o Vasco Colombo, que está de volta ao meio. Podem ouvir tudo aqui;
Mortinhos por Sair de Casa é o roteiro diário de coisas para fazer que passa às 17h40 na rádio. Vai estar parado nas próximas duas semanas (eleições e desformatação da tarde da rádio). Mas todas as emissões andam por aqui;
A Hora da Pop, podcast da Antena 1 dedicado à cultura popular, teve na sexta um episódio de antevisão da Festa do Cinema Francês, com a programadora Anette Dujisin. Todos os episódios estão aqui;
Em breve, coisas novas no À Pala de Walsh. Mais aqui;
E se tiverem Letterboxd, às vezes estou por aqui.
Este texto foi escrito a ouvir a banda sonora de “Once Upon A Time In The West”.
Obrigado e bem hajam.

